terça, 30 de novembro de 2021
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Esquizofrenia: dois olhares


Esquizofrenia: dois olhares

Esquizofrenia: perturbação mental caracterizada por episódios contínuos ou recorrentes de psicose. Os sintomas mais comuns são alucinações (incluindo ouvir vozes), delírios (convicções falsas) e desorganização do pensamento. Assim descreve a Wikipédia.

Essa doença complexa ganhou dois retratos pungentes, e recentes. A minissérie I Know This Much Is True, com Mark Ruffalo em papel duplo como gêmeos, um deles esquizofrênico, e Palavras nas Paredes do Banheiro, uma visão mais juvenil e otimista. As duas produções abordam o tema com muita sensibilidade, impressa em atuações tocantes.


Drama
Palavras nas Paredes do Banheiro/Words on Bathroom Walls

Palavras nas Paredes do Banheiro/Words on Bathroom Walls

Adam (Charlie Plummer, Todo o Dinheiro do Mundo) não sabe bem quando começou a ouvir vozes, e nem quando ganhou três amigos inseparáveis, que só ele vê. Rebecca (AnnaSophia Robb) é zen total, Joaquin (Devon Bostick) ele descreve como “melhor amigo de um filme dos anos 90” e o autoexplicativo Guarda-Costas (Lobo Sebastian) é temperamental. A explicação para as estranhas manifestações veio depois do surto psicótico que provocou sua expulsão da escola em que cursava o ensino médio: esquizofrenia, um distúrbio mental crônico que provoca alucinações visuais e auditivas, entre outros sintomas.

O único lugar onde Adam encontra harmonia é na cozinha, e seu plano de vida é se tornar um chef. Se a juventude já é um redemoinho físico e emocional em si, a de Adam tem extras indesejados. A começar pela adaptação aos medicamentos e seus efeitos colaterais, além do desafio de manter segredo sobre a doença na escola católica que concordou em recebê-lo no meio do ano. Inspirado no best-seller de Julia Walton, Palavras nas Paredes do Banheiro funciona como uma conversa do protagonista com o espectador, que toma o lugar do que seria um psiquiatra.

Palavras nas Paredes do Banheiro/Words on Bathroom Walls

O diretor alemão Thor Freudenthal já mostrou intimidade com o público juvenil em Diário de um Banana e Percy Jackson e o Mar de Monstros. Aqui ele faz bom uso de efeitos especiais para ilustrar as alucinações de Adam com criatividade. A cena da freira em labaredas na reunião de admissão no colégio é cômica. As aparições de sua intrépida trinca de amigos invisíveis também divertem. São bem-vindos respiros para uma situação complexa e dramática.

O enredo explora também como a esquizofrenia afeta aqueles ao redor do doente. A mãe (Molly Parker, Pieces of a Woman) e o padrasto (Walton Goggins, Os Oito Odiados) assumem posturas aparentemente diferentes, ela protetora e ele repulsivo. Mas é Maya (Taylor Russell), a aluna brilhante que se torna tutora e crush de Adam, o fator tanto de estímulo quanto de tensão. Ele não revela sua condição, e ela também guarda um segredo. Colocar o primeiro amor na equação é um chamariz para fãs de outros títulos do gênero “amor e doença”, como A Culpa é das Estrelas e A Cinco Passos de Você.

Palavras nas Paredes do Banheiro/Words on Bathroom Walls

Palavras nas Paredes do Banheiro tem atuações estupendas de todo o elenco, mas é o veterano Andy Garcia (Do Jeito Que Elas Querem), como o padre com quem Adam se confessa, que ganha os melhores diálogos. “Você tem uma doença, mas você não é a doença”, ele diz. Esse distanciamento entre o ser e o ter é peça-chave na convivência possível com um mal crônico. O diretor mira a juventude, mas seu filme toca a todos.




Trailer

Ficha Técnica

Título: Palavras nas Paredes do Banheiro/Words on Bathroom Walls
Direção: Thor Freudenthal
Duração: 110 minutos

País de Produção/Ano: EUA, 2020
Elenco: Charlie Plummer, Taylor Russell, Molly Parker, Andy Garcia, AnnaSophia Robb, Beth Grant, Devon Bostick, Lobo Sebastian, Walton Goggins
Distribuição: Sony Pictures


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Drama
I Know This Much Is True

I Know This Much Is True

Os gêmeos idênticos Thomas e Dominick nasceram com 6 minutos de diferença, na virada do ano. O primeiro em 31 de dezembro de 1949, o outro em 1º de janeiro de 1950. Não conheceram o avô siciliano que migrou para os Estados Unidos no início do século 20, a figura paterna que tiveram foi a de um padrasto violento e a mãe morreu sem nunca revelar a identidade do pai deles. Marcada por uma suposta maldição, a história da família se desvenda em flashbacks na minissérie I Know This Much Is True.

O passado se alterna com um presente ambientado em 1990, ano 1 da Guerra do Golfo, quando Thomas decepa a própria mão com um facão em um ato de sacrifício “pacifista”, no meio de uma biblioteca. Ele é esquizofrênico paranoico. A doença é o motor dos seis episódios, mas o protagonista é seu irmão Dominick, o para-raio dessa tempestade mental que afeta todos ao redor. Thomas e Dominick são interpretados pelo também produtor da série Mark Ruffalo, vencedor do Prime Time Emmy 2020 de melhor ator em minissérie. Diferente do duplo papel como Bruce Banner e Hulk na saga Vingadores, aqui o único efeito especial é o talento estratosférico de Ruffalo.

I Know This Much Is True

Quem o conduz nessa jornada dupla é o produtor, diretor e roteirista Derek Cianfrance, que adapta o romance de Wally Lamb. Exímio observador de relações complicadas em filmes densos como Namorados Para Sempre e A Luz Entre Oceanos, o cineasta chamou um amigo para contracenar com Ruffalo em ambos os papéis. Entre cada etapa, a produção parou por seis semanas para o protagonista engordar os quase dez quilos que diferenciam Dominick de Thomas, cujo inchaço é um dos efeitos colaterais da batelada de remédios que ele toma. O que se tem em cena, portanto, não é o ator com um sósia e sim suas duas atuações, em uma montagem perfeita.

Desde pequeno Dominick assumiu o manto de protetor do irmão, um fardo que só aumentou com a morte da mãe (Melissa Leo, O Protetor 2), quando estavam perto dos 40 anos. É dela, no leito de morte, que ele recebe um manuscrito em italiano, no qual seu avô narra a própria história e onde espera encontrar respostas sobre o pai. A vida pessoal inclui a ex-mulher (Kathryn Hahn, Mais Uma Chance), o melhor amigo (Rob Huebel, Os Descendentes), o padrasto (John Procaccino, série The Good Wife), a namorada (Imogen Poots, Meu Pai) e a tradutora (Juliette Lewis, Ma) da papelada do avô, mas está na berlinda diante das demandas de Thomas. O desafio atual é tirá-lo da instituição penal onde foi internado por conta da manifestação contra a guerra, que lhe custou a mão.

I Know This Much Is True

I Know This Much Is True é um painel da vulnerabilidade. A esquizofrenia atinge a todos e, no fundo, Thomas é o vetor de uma transformação profunda no irmão. Com a ajuda de uma terapeuta (Archie Panjabi, série The Good Wife), Dominick vai desviar o olhar para encarar a si mesmo e seus desafetos, porém sem o ceifador do preconceito e da intolerância. Admitir a própria fragilidade moral aqui é o caminho para a redenção. Acompanhar Dominick nesse trajeto é uma experiência reveladora.




Trailer

Ficha Técnica

Título: I Know This Much Is True
Direção: Derek Cianfrance
Duração: 60 minutos

País de Produção/Ano: EUA, 2020
Elenco: Mark Ruffalo, John Procaccino, Rob Huebel, Melissa Leo, Rosie O Donnell, Kathryn Hahn, Archie Panjabi, Michael Greyeyes, Imogen Poots, Juliette Lewis, Bruce Greenwood
Distribuição: HBOGo


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Suzana Uchôa Itiberê

Suzana Uchôa Itiberê

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Cinéfila incorrigível, jornalista de plantão, crítica de cinema (não muito) chatinha e editora caprichosa. Cria do jornal O Estado de S. Paulo, trabalhou nas revistas TVA, Set, Istoé Gente e foi cofundadora da revista Preview. Membro da Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema).

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