segunda, 18 de janeiro de 2021

Pieces of a Woman


Pieces of a Woman
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Netflix

É um suplício passar pela devastadora sequência do parto domiciliar no prólogo. A partir da primeira contração, são cerca de 20 minutos de muita tensão, dor, náusea, vulnerabilidade, esperança, medo, alívio, amor, desespero. Dá tudo errado. É preciso retomar o fôlego para seguir em frente. Só aí o diretor húngaro Kornél Mundruczó (Deus Branco) apresenta o título do seu filme, Pieces of a Woman, em português Pedaços de uma Mulher.

A britânica Vanessa Kirby (Velozes & Furiosos: Hobbs & Shaw, série The Crown) venceu a Copa Volpi de melhor atriz no Festival de Veneza 2020 e está cotada para o Oscar. Ela dá vida à Martha, que tenta juntar os cacos depois da tragédia. O alvoroço inicial dá lugar ao silêncio. Um mês depois, a mãe em luto volta ao trabalho sob o olhar pesaroso dos colegas. Ela ainda anda como grávida, com as pernas afastadas, e lida com os efeitos normais do pós-parto, como sangramento e produção de leite. O processo criminal contra a parteira dificulta o seguir em frente. A relação com o marido, Sean (Shia LaBeouf, Borg vs McEnroe ), também sofre. E ele sofre, muito.

Sean é especialista na construção de pontes. O enredo é dividido cronologicamente por meses e os capítulos se abrem com imagens da evolução da obra em que ele trabalha naquele período. Esse jogo cênico é fio condutor da narrativa e espelho da realidade. Às tantas, o próprio Sean verbaliza a analogia: “Todo objeto sólido tem uma vibração, quando a vibração externa se iguala à interna, há ressonância. Às vezes, a ressonância é tão forte a ponto de derrubar uma ponte”. É essa ressonância, a repercussão da morte da bebê na vida do casal e da família de Martha, que o cineasta investiga com sobriedade.

Martha torna-se apática e fechada em si. Sean torna-se descontrolado e explosivo. Quem olha o drama do alto da experiência é Elizabeth (Ellen Burstyn, O Conto), a dominadora mãe da protagonista. Judia rica sobrevivente do nazismo, ela não esconde o preconceito contra a origem pobre de Sean e toma atitudes cruéis. Por outro lado, ela corajosamente resgata seu traumático passado para fazer um discurso arrasador sobre “levantar a cabeça”. Note como aos poucos Sean sai de cena e o diretor faz o feminino aflorar. Ao focar em mãe e filha - na verdade em duas mães -, ele deixa claro de que pontes, afinal, trata Pedaços de Uma Mulher.

É o filme mais pessoal de Mundruczó e Kata Wéber, sua esposa e roteirista também de Deus Branco e Lua de Júpiter. A estreia da dupla em língua inglesa é inspirada pela perda de um bebê e por um caso real que foi parar nos tribunais húngaros. Esse exercício cinematográfico de superação é tão profundo que torna tangível a dor de Martha, Sean e Elizabeth. Difícil imaginar o quão intenso deve ter sido o mergulho de Vanessa, LeBouf e Ellen em seus respectivos personagens. É a força da atuação deles, isso sim, que deixa o espectador em pedaços.




Trailer

Ficha Técnica

Título: Pieces of a Woman
Direção: Kornél Mundruczó
Duração: 126 minutos

País de Produção/Ano: Hungria/Canadá/EUA, 2020
Elenco: Vanessa Kirby, Shia LaBeouf, Ellen Burstyn, Benny Safdie, Molly Parker, Sarah Snook, Iliza Shlesinger
Distribuição: Netflix

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Suzana Uchôa Itiberê

Suzana Uchôa Itiberê

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Cinéfila incorrigível, jornalista de plantão, crítica de cinema (não muito) chatinha e editora caprichosa. Cria do jornal O Estado de S. Paulo, trabalhou nas revistas TVA, Set, Istoé Gente e foi cofundadora da revista Preview. Membro da Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema).

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