segunda, 18 de janeiro de 2021

Mank e Cidadão Kane: Do roteiro à obra-prima


Mank e Cidadão Kane: Do roteiro à obra-prima

O magnífico Mank, produção da Netflix dirigida por David Fincher, não existiria sem Cidadão Kane, a obra-prima de Orson Welles.

Também é verdade que o clássico de 1941 ganha novo sabor, se revisitado à luz desse extrato dos bastidores de sua criação. 

Mank e Cidadão Kane conversam e se completam. Merecem ser vistos juntos, independente da ordem. Por isso, reunimos nesta Lista nossas duas críticas, para tornar a sessão dupla uma inesquecível jornada cinematográfica. 


Drama
Cidadão Kane/Citizen Kane

Cidadão Kane/Citizen Kane

Por SUZANA UCHÔA ITIBERÊ

É um fascinante exercício revisitar Cidadão Kane passadas mais de duas décadas da primeira sessão. O olhar de quem ainda engatinhava nos estudos da sétima arte e na crítica cinematográfica recaíra para as inovações técnicas e narrativas que colocaram a produção de 1941 no topo do olimpo, como o melhor filme de todos os tempos por um sem número de ranks internacionais. A experiência, profissional e de vida, abriu o escopo subjetivo, das motivações emocionais e psicológicas que transbordam nas entrelinhas e que, no fim das contas, desvendam o real significado de Rosebud – a derradeira palavra do protagonista Charles Foster Kane antes de morrer.

Rosebud é tanto o enigma quanto o MacGuffin, a força motriz da história que se desenvolve a partir da investigação de um jornalista, logo após a morte do magnata interpretado pelo também produtor, diretor e corroteirista Orson Welles. Por sinal, o Oscar de melhor roteiro, compartilhado com Herman J. Manckiewicz, foi a única vitória entre as 9 indicações que Cidadão Kane recebeu. Esse extrato dos bastidores já tem em Mank, produção da Netflix dirigida por David Fincher, um retrato honroso e fabuloso.

Repare que a trama começa com o protagonista à morte. Ele deixa cair um souvenir, uma bola de cristal que tem no interior uma casinha na neve. Em seguida, um noticiário de TV faz uma retrospectiva da saga do milionário, o que inclui a separação abrupta da família, a inesperada riqueza, o idealismo, os excessos, a frustrada tentativa de entrar para a política, os casamentos e o fim solitário na mitológica Xanadu, descrita como a maior mansão particular do mundo. Curioso como esse resumão biográfico aguça o interesse do espectador, que se deixa hipnotizar pelo Charles Foster Kane de Orson Welles, ora na flor de seus 25 anos, ora na maturidade e na velhice.

O jovem Welles irrompeu em Hollywood como o enfant terrible do rádio, aquele que deixou os ouvintes em pânico tamanha veracidade com que anunciou a invasão alienígena em uma leitura ao vivo do romance A Guerra dos Mundos, de H.G. Wells. Com carta branca do estúdio RKO, Welles estreou na direção de longas provocando polêmica. Mankiewicz nunca escondeu que o protagonista era inspirado no todo-poderoso William Randolph Hearst (1863-1951), um magnata da comunicação ao nível do falecido proprietário do grupo Globo, Roberto Marinho, só que da mídia impressa. O perfil de Charles Foster Kane é tudo menos lisonjeiro, e virou lenda o fato de Hearst ter mandado queimar o negativo do filme antes de estreia. Ficou na tentativa, claro.

A engenhosa narrativa fora da ordem cronológica é um dos legados dessa obra-prima, que ganha tom documental pela fotografia em preto e branco, em um magnífico jogo de sombras tipicamente noir. É também do diretor de fotografia Gregg Toland o mérito pelas já antológicas tomadas com profundidade de campo, com foco simultâneo em todos os elementos da cena – caso da imagem do menino Charles brincando na neve ao fundo, enquanto sua mãe assina o contrato que define sua criação por um tutor. E o que dizer do travelling da câmera “flutuante” que atravessa um telhado de vidro para entrar sinuosamente no bar onde está um dos amores de Kane.

As inovações técnicas são monumentais, mas não ofuscam a razão de ser de Cidadão Kane. Orson Welles faz um meticuloso estudo de personagem. Considerado comunista por uns, fascista por outros, mas por ele próprio apenas um americano, Charles Foster Kane é um genioso filantropo de bom coração, que se deixa corroer pelo poder quando tudo o que busca não é o dinheiro, mas o amor. O melhor veredito vem de seu melhor amigo, Jedediah Leland (Joseph Cotten): “Você quer persuadir as pessoas de que as ama, para que elas o amem de volta, mas quer o amor nos seus termos, algo para ser feito do seu jeito, de acordo com suas regras”.

Não é mais segredo que Rosebud era o nome gravado no trenó com que o pequeno Kane brincava na neve no dia em que foi separado dos pais, um casal pobre do Colorado que se descobre dono de uma mina de ouro. Essa é a explicação objetiva para o enigma. Mas Kane murmura Rosebud ao morrer porque a carência familiar o moldou como homem, o tornou esse pobre menino rico com um vazio nunca preenchido. Diferente da Dorothy de O Mágico de Oz, nem todo o dinheiro do mundo deu a Charles Foster Kane os encantados sapatinhos vermelhos rubi que a levaram de volta ao lar.




Trailer

Ficha Técnica

Título: Cidadão Kane/Citizen Kane
Direção: Orson Welles
Duração: 119 minutos

País de Produção/Ano: EUA, 1941
Elenco: Orson Welles, Joseph Cotten, Dorothy Comingore, Agnes Moorehead, Ruth Warrick, Ray Collins, George Coulouris, Georgia Backus
Distribuição: RKO Pictures


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Drama
Mank

Mank

Por FÁTIMA GIGLIOTTI

A ambição de Mank só encontra paralelo no talento do cineasta David Fincher, indicado ao Oscar por O Curioso Caso de Benjamin Button (2008) e A Rede Social (2010), e cultuado por Se7en – Os Sete Crimes Capitais (1995) e Clube da Luta (1999). Fincher tem um raro domínio virtuoso da linguagem cinematográfica, sempre articulado a serviço da história que tem a contar, invariavelmente, sobre a natureza humana sujeita às suas próprias intempéries. Por isso, a incursão de Mank nos bastidores da gênese da produção de Cidadão Kane (1941), de Orson Welles, eleito pelo AFI - American Film Institute (Instituto Americano de Cinema) o melhor filme da história do cinema norte-americano, é tão preciosa e genial.

Escrito pelo pai do cineasta, o jornalista Jack Fincher (1930-2003), o roteiro de Mank acompanha o turbulento processo de criação do roteiro de Cidadão Kane por Herman J. Mankiewicz (1897-1953), autor do original Os Homens Preferem as Loiras (1928), Jantar às Oito (1933), de George Cukor, e A Vida Íntima de Uma Mulher (1949), de Nicholas Ray, além de consultor do roteiro do clássico O Mágico de Oz (1939), de Victor Fleming. Culto, inteligente e espirituoso, amigável, mas genioso, Mankiewicz fumava e bebia demais. Mas era sua exacerbada visão crítica de Hollywood que não agradava a todos. Pelo menos o Mank (Gary Oldman, A Lavanderia) dos Fincher.

Depois de um acidente de carro que o deixou acamado, em 1940, Mank é levado pelo ansioso produtor John Houseman (Sam Troughton) a um rancho afastado, onde dita o roteiro para a eficiente secretária Rita (Lilly Collins, série Emily in Paris), que deve estar pronto em 60 dias. Ocasionalmente, Orson Welles (Tom Burke), o então jovem prodígio dos estúdios RKO, que ganhou carta branca para a produção aos 25 anos, ligava para cobrar o prazo. Os dois se encontram – e trocam farpas - uma vez, após a entrega da primeira versão do roteiro. Assinado pela dupla, o roteiro conquistou o Oscar, o único dentre as nove indicações do clássico ao prêmio. Mank e Welles não foram à cerimônia receber a estatueta, e novamente trocaram farpas nos agradecimentos a posteriori. Welles, inclusive, os fez do Rio de Janeiro, onde rodava o tardio It’s All True – É Tudo Verdade.

Esse é o fio condutor da história. Enquanto escreve o roteiro, Mank revisita sua trajetória na era dourada de Hollywood pré-Segunda Guerra Mundial, e muitos de seus mais emblemáticos personagens. Entre eles, Louis B. Mayer (Arliss Howard) e Irving Thalberg (Ferdinand Kingsley), o dono e o executivo de produção dos estúdios MGM, respectivamente. O irmão de Mank, Joseph Mankiewicz (Tom Pelphrey), diretor de clássicos como A Malvada (1950) e Cleópatra (1963), é figura importante. E, obviamente, o magnata da mídia William Randolph Hearst (Charles Dance, Euforia) e sua mulher, a atriz Marion Davies (Amanda Seyfried, Cartas para Julieta), inspiração para os protagonistas de Cidadão Kane, Charles Foster Kane e Emily Kane.

A reunião do grupo de ilustres roteiristas da Paramount ao qual pertencia Mank, Ben Hecht (Scarface, 1932) e George S. Kaufman (Uma Noite na Ópera, 1935), com o produtor David O. Selznick, de ... E O Vento Levou (1939), seria puro deleite se não instaurasse no filme o simulacro espelhado do contemporâneo que Fincher denuncia sem piedade. Nesta sequência, com humor, ele espeta e questiona a criatividade da indústria do cinema, ao mesmo tempo que amplifica a ideia, a legitimidade e, sobretudo, a responsabilidade da autoria na sétima arte, tão plural. Se Mank foi ou não o único autor do roteiro e exorcizou seus fantasmas com ele, essa não é a questão.

Já quando um hipócrita Louis B. Mayer avisa o conjunto de elenco e técnicos da MGM sobre o corte de 50% de seus salários, face à Grande Depressão dos anos 1930, o reflexo da atualidade não é nada engraçado. Torna-se ainda mais sombrio e amargo no episódio das eleições para o governo da Califórnia, em 1934, quando Mayer e Hearst, entre outros, usam o poder dos estúdios e da mídia para vencer o candidato progressista, simpático ao socialismo, Upton Sinclair (autor de Oil!, no qual Paul Thomas Anderson se inspirou para escrever e dirigir Sangue Negro, de 2007). A sequência se conecta diretamente com o travo crítico de Fincher em A Rede Social, desemboca nas malignas e atuais fake news, e varre nove décadas da produção audiovisual com o crivo da manipulação da imagem, seja pelos filmes, pela televisão, pela política ou pela publicidade, esta que o diretor conhece bem.

Esse olhar, ao mesmo tempo admirado e inquiridor, que Mank desperta, mimetiza a revolucionária profundidade de plano que Orson Welles introduziu no cinema. Se por si só esse desdobramento já seria brilhante, creditado a pai e filho, David Fincher lhe dá vida própria com toques de gênio. Na forma, também celebra Cidadão Kane, com a deslumbrante e nostálgica fotografia em branco e preto e os enquadramentos de Erik Messerschmidt, parceiro do diretor na série Mindhunter, que estreia no cinema. Para tanto, foi preciso desenvolver especialmente para o filme uma câmera de sensores monocromáticos em 8K. Com o som monoaural, que também invoca a obra de Welles, de resto como toda a esplendorosa produção, e o ritmo impresso por Fincher com o vai-e-vem de flashbacks.

Cotado como forte candidato ao Oscar, com as novas regras anunciadas em 2020, Mank não seria o que é sem seus primorosos intérpretes. À parte a soberba composição de Gary Oldman para o personagem-título, a fulgurante Marion de Amanda Seyfried e a discrição luminosa de Lily Collins, o numeroso elenco coadjuvante não pronuncia uma nota fora do tom, admirável. Fincher lança mão, ainda, de um outro recurso metalinguístico simples, mas de efeito singular em seu já extraordinário Mank. As sequências do filme são introduzidas com as marcações do roteiro datilografas à máquina na tela, um veemente lembrete de Fincher de que, apesar de tudo, sua arte – e que arte – é a da ilusão. E que homenagem de David ao pai, Jack.




Trailer

Ficha Técnica

Título: Mank
Direção: David Fincher
Duração: 131 minutos

País de Produção/Ano: EUA, 2020
Elenco: Gary Oldman, Amanda Seyfried, Lily Collins, Tom Pelphrey, Arliss Howard, Tuppence Middleton, Tom Burke, Sam Troughton, Ferdinand Kingsley, Charles Dance
Distribuição: Netflix


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Suzana Uchôa Itiberê

Suzana Uchôa Itiberê

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Cinéfila incorrigível, jornalista de plantão, crítica de cinema (não muito) chatinha e editora caprichosa. Cria do jornal O Estado de S. Paulo, trabalhou nas revistas TVA, Set, Istoé Gente e foi cofundadora da revista Preview. Membro da Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema).

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