domingo, 11 de abril de 2021

Mank


Mank
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A ambição de Mank só encontra paralelo no talento do cineasta David Fincher, indicado ao Oscar por O Curioso Caso de Benjamin Button (2008) e A Rede Social (2010), e cultuado por Se7en – Os Sete Crimes Capitais (1995) e Clube da Luta (1999). Fincher tem um raro domínio virtuoso da linguagem cinematográfica, sempre articulado a serviço da história que tem a contar, invariavelmente, sobre a natureza humana sujeita às suas próprias intempéries. Por isso, a incursão de Mank nos bastidores da gênese da produção de Cidadão Kane (1941), de Orson Welles, eleito pelo AFI - American Film Institute (Instituto Americano de Cinema) o melhor filme da história do cinema norte-americano, é tão preciosa e genial.

Escrito pelo pai do cineasta, o jornalista Jack Fincher (1930-2003), o roteiro de Mank acompanha o turbulento processo de criação do roteiro de Cidadão Kane por Herman J. Mankiewicz (1897-1953), autor do original Os Homens Preferem as Loiras (1928), Jantar às Oito (1933), de George Cukor, e A Vida Íntima de Uma Mulher (1949), de Nicholas Ray, além de consultor do roteiro do clássico O Mágico de Oz (1939), de Victor Fleming. Culto, inteligente e espirituoso, amigável, mas genioso, Mankiewicz fumava e bebia demais. Mas era sua exacerbada visão crítica de Hollywood que não agradava a todos. Pelo menos o Mank (Gary Oldman, A Lavanderia) dos Fincher.

Depois de um acidente de carro que o deixou acamado, em 1940, Mank é levado pelo ansioso produtor John Houseman (Sam Troughton) a um rancho afastado, onde dita o roteiro para a eficiente secretária Rita (Lilly Collins, série Emily in Paris), que deve estar pronto em 60 dias. Ocasionalmente, Orson Welles (Tom Burke), o então jovem prodígio dos estúdios RKO, que ganhou carta branca para a produção aos 25 anos, ligava para cobrar o prazo. Os dois se encontram – e trocam farpas - uma vez, após a entrega da primeira versão do roteiro. Assinado pela dupla, o roteiro conquistou o Oscar, o único dentre as nove indicações do clássico ao prêmio. Mank e Welles não foram à cerimônia receber a estatueta, e novamente trocaram farpas nos agradecimentos a posteriori. Welles, inclusive, os fez do Rio de Janeiro, onde rodava o tardio It’s All True – É Tudo Verdade.

Esse é o fio condutor da história. Enquanto escreve o roteiro, Mank revisita sua trajetória na era dourada de Hollywood pré-Segunda Guerra Mundial, e muitos de seus mais emblemáticos personagens. Entre eles, Louis B. Mayer (Arliss Howard) e Irving Thalberg (Ferdinand Kingsley), o dono e o executivo de produção dos estúdios MGM, respectivamente. O irmão de Mank, Joseph Mankiewicz (Tom Pelphrey), diretor de clássicos como A Malvada (1950) e Cleópatra (1963), é figura importante. E, obviamente, o magnata da mídia William Randolph Hearst (Charles Dance, Euforia) e sua mulher, a atriz Marion Davies (Amanda Seyfried, Cartas para Julieta), inspiração para os protagonistas de Cidadão Kane, Charles Foster Kane e Emily Kane.

A reunião do grupo de ilustres roteiristas da Paramount ao qual pertencia Mank, Ben Hecht (Scarface, 1932) e George S. Kaufman (Uma Noite na Ópera, 1935), com o produtor David O. Selznick, de ... E O Vento Levou (1939), seria puro deleite se não instaurasse no filme o simulacro espelhado do contemporâneo que Fincher denuncia sem piedade. Nesta sequência, com humor, ele espeta e questiona a criatividade da indústria do cinema, ao mesmo tempo que amplifica a ideia, a legitimidade e, sobretudo, a responsabilidade da autoria na sétima arte, tão plural. Se Mank foi ou não o único autor do roteiro e exorcizou seus fantasmas com ele, essa não é a questão.

Já quando um hipócrita Louis B. Mayer avisa o conjunto de elenco e técnicos da MGM sobre o corte de 50% de seus salários, face à Grande Depressão dos anos 1930, o reflexo da atualidade não é nada engraçado. Torna-se ainda mais sombrio e amargo no episódio das eleições para o governo da Califórnia, em 1934, quando Mayer e Hearst, entre outros, usam o poder dos estúdios e da mídia para vencer o candidato progressista, simpático ao socialismo, Upton Sinclair (autor de Oil!, no qual Paul Thomas Anderson se inspirou para escrever e dirigir Sangue Negro, de 2007). A sequência se conecta diretamente com o travo crítico de Fincher em A Rede Social, desemboca nas malignas e atuais fake news, e varre nove décadas da produção audiovisual com o crivo da manipulação da imagem, seja pelos filmes, pela televisão, pela política ou pela publicidade, esta que o diretor conhece bem.

Esse olhar, ao mesmo tempo admirado e inquiridor, que Mank desperta, mimetiza a revolucionária profundidade de plano que Orson Welles introduziu no cinema. Se por si só esse desdobramento já seria brilhante, creditado a pai e filho, David Fincher lhe dá vida própria com toques de gênio. Na forma, também celebra Cidadão Kane, com a deslumbrante e nostálgica fotografia em branco e preto e os enquadramentos de Erik Messerschmidt, parceiro do diretor na série Mindhunter, que estreia no cinema. Para tanto, foi preciso desenvolver especialmente para o filme uma câmera de sensores monocromáticos em 8K. Com o som monoaural, que também invoca a obra de Welles, de resto como toda a esplendorosa produção, e o ritmo impresso por Fincher com o vai-e-vem de flashbacks.

Cotado como forte candidato ao Oscar, com as novas regras anunciadas em 2020, Mank não seria o que é sem seus primorosos intérpretes. À parte a soberba composição de Gary Oldman para o personagem-título, a fulgurante Marion de Amanda Seyfried e a discrição luminosa de Lily Collins, o numeroso elenco coadjuvante não pronuncia uma nota fora do tom, admirável. Fincher lança mão, ainda, de um outro recurso metalinguístico simples, mas de efeito singular em seu já extraordinário Mank. As sequências do filme são introduzidas com as marcações do roteiro datilografas à máquina na tela, um veemente lembrete de Fincher de que, apesar de tudo, sua arte – e que arte – é a da ilusão. E que homenagem de David ao pai, Jack.




Trailer

Ficha Técnica

Título: Mank
Direção: David Fincher
Duração: 131 minutos

País de Produção/Ano: EUA, 2020
Elenco: Gary Oldman, Amanda Seyfried, Lily Collins, Tom Pelphrey, Arliss Howard, Tuppence Middleton, Tom Burke, Sam Troughton, Ferdinand Kingsley, Charles Dance
Distribuição: Netflix

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Fátima Gigliotti

Fátima Gigliotti

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Cinéfila incorrigível, jornalista, editora, professora (não muito), crítica (chatinha) de cinema e audiovisual. Trabalhou no jornal A Folha de São Paulo, na coleção Cinemateca Veja, nas revistas TVA, Ver Vídeo, Set, Querida e Preview.

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