“A maternidade tem um efeito humanizador. Tudo fica restrito ao essencial”. A frase é da atriz Meryl Streep, mãe de quatro filhos. O Dia das Mães de 2020 será diferente de todos os outros. Sem beijos e abraços para alguns. À distância para outros. Na saudade para muitos. Nessa quarentena da Covid-19, o essencial é preservar a saúde – física e mental.
Sem sonhar que um dia haveria essa pandemia, as mães desse quarteto de filmes formam um delicado mosaico das descobertas, dos desafios e das alegrias da maternidade. Desde as que vivem a expectativa da chegada dos bebês em O Que Esperar Quando Você Está Esperando, até a matriarca que entrou para a terceira fase, a de avó, em Feliz Aniversário. Já as mães de Benzinho e O Retorno de Ben lidam com dificuldades extras e entram no modo “mãe guerreira” para dar conta de tudo. Cada uma à sua maneira, são mães extraordinárias. Feliz Dia das Mães!
Comédia Dramática

O Que Esperar Quando Você Está Esperando/What to Expect When You re Expecting
por FÁTIMA GIGLIOTTI
A escritora Heide Murkoff, em parceria com Arlene Eisenberg e Sandee Hathaway, lançou em 1984 um guia completo para grávidas com o sugestivo título de O Que Esperar Quando Você Está Esperando. De lá para cá novas edições foram publicadas com atualizações. Na adaptação dirigida por Kirk Jones (Estão Todos Bem), cinco mulheres - e seus companheiros - descobrem o que podem e o que gostariam de esperar quando engravidam. O cineasta é britânico, mas o humor é tipicamente americano, e nem sempre de bom gosto.
Mesmo assim, as diferentes experiências compõem um interessante mosaico sobre gravidez e maternidade, com um elenco de estrelas que traz até o nosso Rodrigo Santoro (Ben-Hur), e participações de comediantes como Chris Rock (Meu Nome é Dolemite) e Rebel Wilson (Jojo Rabbit). O passeio semanal do grupo de pais com seus filhotes é particularmente divertido, além de inclusivo no tocante ao papel deles na educação das crianças, algo que nem sempre vemos no cinema.
Jules (Cameron Diaz, O Amor Não Sai de Férias) é a inquieta apresentadora de um reality show de emagrecimento, que engravida sem planejar de seu parceiro num programa de Dança dos Famosos. Depois de dois anos nas tentativas, Wendy (Elizabeth Banks, As Panteras) parece ter tirado a sorte grande nos incômodos da gravidez, dos inchaços à flatulência, dos quais sua jovem sogra, Skyler (Brooklyn Decker), nem passa perto, apesar de esperar gêmeas. Rosie (Anna Kendrick, Um Pequeno Favor) é surpreendida pelo resultado positivo depois de uma única noite com um crush do colégio, e Holly (Jennifer Lopez, As Golpistas) é a fotógrafa que não consegue engravidar e decide adotar um bebê da Etiópia.
Há um certo conforto nas histórias dessas mulheres que contam com a companhia de seus parceiros, marido, namorado ou mero “ficante”. Assim como há um grande conforto na narrativa previsível, ainda que simpática. No Dia das Mães em meio ao isolamento global, em que os bebês nascidos pós-coronavírus são chamados de “filhos da pandemia”, um pouco de previsibilidade, conforto e humor caem muito bem.
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Ficha Técnica
Título: O Que Esperar Quando Você Está Esperando/What to Expect When You re Expecting
Direção: Kirk Jones
Duração: 110 minutos
País de Produção/Ano: EUA, 2012
Elenco: Jennifer Lopez, Rodrigo Santoro, Cameron Diaz, Matthew Morrison, Elizabeth Banks, Ben Falcone, Anna Kendrick, Chace Crawford, Dennis Quaid, Brooklyn Decker, Chris Rock, Rebel Wilson, Joe Manganiello
Distribuição: Universal Pictures
Comédia Dramática

Benzinho
por SUZANA UCHÔA ITIBERÊ
Um dos melhores filmes nacionais dos últimos tempos, Benzinho saiu do Festival de Gramado 2018 com os Kikitos de melhor atriz para Karine Teles e atriz coadjuvante para Adriana Esteves. Ainda foi eleito o melhor longa nacional pelo Júri Popular e pela Crítica. Todos merecidíssimos. Também foi consagrado o maior vencedor do 18º Grande Prêmio do Cinema Brasileiro 2019, com seis troféus: melhor filme, direção, roteiro original, atriz, atriz coadjuvante e montagem.
O roteiro é do diretor Gustavo Pizzi e da atriz Karine Teles, que eram casados e colocam suas experiências na tela. Seus filhos, Arthur e Francisco, vivem os pequenos gêmeos, enquanto o sobrinho de Karine, Luan Teles, encarna o filho do meio. A prole da protagonista Irene (Karine) e de seu marido Klaus (Otávio Müller) se completa com o primogênito Fernando (o estreante Konstantinos Sarris), que está prestes a ir embora para jogar handebol na Alemanha.
A síndrome do ninho vazio está no centro da narrativa, como um combustível estranho na maratona diária de Irene, que se divide entre os afazeres domésticos, um trabalho autônomo e os estudos (ela está prestes a concluir o ensino médio). Se pela frustração profissional do marido Klaus o enredo ilumina a classe média baixa brasileira – em tom cômico, vale ressaltar -, a violência doméstica ganha espaço pela personagem Sônia (Adriana Esteves), irmã de Irene, que busca abrigo na casa dela com o filho após apanhar do marido (César Troncoso).
Além das atuações sublimes, há outra força intensa em cena: as três casas que formam o patrimônio da família – a casa em que eles moram, que está caindo aos pedaços, a casa de praia, que precisa ser vendida, e a casa em construção, cuja obra está parada. Esses espaços cheios de detalhes ajudam a contar a história, são a alma da família. Acima de tudo, porém, são o reflexo de Irene, uma mulher-coragem em plena transformação. Belíssimo.
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Ficha Técnica
Título: Benzinho
Direção: Gustavo Pizzi
Duração: 95 minutos
País de Produção/Ano: Brasil, 2018
Elenco: Karine Teles, Adriana Esteves, Otávio Müller, Konstantinos Sarris, César Troncoso
Distribuição: Vitrine Filmes
Drama

O Retorno de Ben/Ben Is Back
por SUZANA UCHÔA ITIBERÊ
Alguém explica como a atuação de Julia Roberts em O Retorno de Ben pode ter sido ignorada na temporada de prêmios? Eu já havia me emocionado com o recente Querido Menino, com Steve Carell como o pai que tenta segurar as pontas do filho drogado (Timothée Chalamet), mas a batalha aqui é ainda mais punk.
O diretor e roteirista Peter Hedges escalou o próprio filho, Lucas Hedges, como protagonista. Indicado ao Oscar de coadjuvante por Manchester à Beira-Mar, ele entrega outra atuação de aplaudir em pé. Seu personagem, Ben, volta para casa sem aviso na véspera do Natal. A reação da mãe, Holly (Julia Roberts), é de uma alegria intensa e nervosa, e o motivo é um só: Ben deveria estar na clínica de reabilitação.
Sem firulas, o enredo se ergue como uma montanha-russa. Mais lento na subida, com Holly tentando apaziguar o celeuma caseiro, já que a presença de Ben gera tensão com o padrasto, a irmã e os dois meio-irmãos. Holly deixa ele passar a noite de festa em família, com a condição de fiscalizá-lo nas próximas 24 horas – qualquer tentação pode colocá-lo de novo no trilho da morte.
O problema é que o rapaz deixou um rastro de estragos no passado, e alguns deles voltam para assombrar. Pois será no ritmo de subidas, descidas, loopings e poucos respiros, que o público vai pregar os olhos em Ben e Holly. Essa mãe é um poço de coragem, determinação, ternura, desespero, culpa, mas jamais resignação. Julia Roberts estampa todos esses sentimento de uma só vez. É interpretação digna de Oscar, sim.
E o final... Bom, fica a dica: guarda um pouquinho de ar para a última sequência.
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Ficha Técnica
Título: O Retorno de Ben/Ben Is Back
Direção: Peter Hedges
Duração: 103 minutos
País de Produção/Ano: EUA, 2018
Elenco: Julia Roberts, Lucas Hedges, Courtney B. Vance, Kathryn Newton, Michael Esper
Distribuição: Diamond Films
Drama

Feliz Aniversário/Fête de famille
por FÁTIMA GIGLIOTTI
O diretor, roteirista e ator Cédric Kahn (A Prece) confessou que queria fazer o seu próprio Festa de Família (1998), em referência ao premiado filme de Thomas Vinterberg, tanto que repete o título original, Fête de famille. Em vez da festa de casamento da produção dinamarquesa, Feliz Aniversário escolhe como cenário e ocasião para seu impiedoso mergulho nas relações familiares o aniversário de 70 anos da matriarca Andrea (Catherine Deneuve, Adeus à Noite).
O tema central é o mesmo, mas Kahn não segue à risca as regras do Dogma 95, movimento criado por Vinterberg e seu compatriota Lars Von Trier, que prega um cinema realista e natural, rodado em locação, com iluminação natural, sem efeitos especiais e com história e personagens em primeiro plano. Feliz Aniversário é um projeto de concepção cerebral, articulado em sequências e enquadramentos precisos, em que locações e fotografia simulam efeitos de naturalismo e realismo. Isso soa por demais calculado, mas a história, os diálogos e os personagens são irrepreensíveis.
São 11 personagens em cena. A aniversariante Andrea gostaria que a família só falasse de assuntos felizes, mas os ressentimentos e as acusações explodem entre os três filhos: a primogênita Claire (Emmanuelle Bercot, Filhas do Sol), instável mentalmente, o sensato Vincent (o próprio Kahn, que pela primeira vez dirige a si mesmo) e o irresponsável Romain (Vincent Macaigne, 2 Outonos e 3 Invernos). Emma (Luàna Bajrami, O Professor Substituto), filha de Claire criada pela avó, e seu namorado afrodescendente Julien (o jovem pianista Joshua Rosinet) também entram na ciranda de conflitos, da qual, na verdade, ninguém escapa.
A não ser os garotos gêmeos filhos de Vincent, que brincam e desarmam a farsa familiar com honestidade, ingenuidade e afeto genuíno. Há pelo menos duas instâncias notáveis. Uma delas é a discreta metalinguagem ou o elogio da arte, porque ora é o piano clássico e a música, ora uma peça de teatro ou o próprio cinema que se manifestam como interlocutores das emoções. A outra é a estratégia narrativa do cineasta, que coloca o espectador na cena, como testemunha. O efeito é impactante, desconcertante e certamente reflexivo. Kahn fez da sua festa de família algo familiar (até demais) a muitos de nós.
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Ficha Técnica
Título: Feliz Aniversário/Fête de famille
Direção: Cédric Kahn
Duração: 101 minutos
País de Produção/Ano: França/Bélgica, 2019
Elenco: Catherine Deneuve, Emmanuelle Bercot, Vincent Macaigne, Cédric Kahn, Luàna Bajrami, Laetitia Colombani, Isabel Aimé González-Sola, Alain Artur, Joshua Rosinet
Distribuição: Imovision