quarta, 03 de março de 2021

Jojo Rabbit


Jojo Rabbit
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Em 2018, quando Jojo Rabbit estava em fase de edição, o diretor neozelandês Taika Waititi (Thor: Ragnarok) disse em uma entrevista que seu próximo filme era uma “estranha comédia de arte navegando em águas perigosas”. Nada mais verdadeiro. O talentoso e versátil diretor, produtor e ator, escreveu o roteiro inspirado no livro O Céu que Nos Oprime, de Christine Leunens. É sobre um garoto de 10 anos que entra para o exército juvenil da Alemanha, nos últimos meses da Segunda Guerra, e descobre que sua mãe esconde uma garota judia no sótão da casa deles.

O menino é Jojo (o irresistível Roman Griffin Davis), nazista fanático, que ganha o apelido no seu primeiro dia de treinamento, quando falha na missão de matar um coelho (rabbit) para provar sua coragem como soldado. Quem aparece para dar consolo e incentivo nessa iniciação de Jojo Rabbit no país dos assombros do nazismo é seu amigo imaginário, Adolf (Waititi), o Hitler em pessoa. O personagem foi inventado por Waititi para dar maior consistência narrativa ao filme. De fato.

Os executivos da 20th Century Studios (Fox Searchlight Pictures, antes de ser comprada pela Disney) exigiram que o próprio diretor interpretasse Hitler para coproduzir o filme, e Waititi deu à sua composição caricata e satírica algo de sarcástico e bufão. São as águas perigosas que entalaram na garganta de uma parte considerável da crítica especializada. Nelas também navegam o capitão Klenzendorf (o magistral Sam Rockwell, O Caso Richard Jewell), seu fiel assessor, Finkel (Alfie Allen, da série Game of Thrones), e a dedicada oficial Rahm (Rebel Wilson, As Trapaceiras), com suas ordens e imposições caóticas e hilárias. Uma ação arriscada leva Jojo para o hospital e lhe deixa com profundas cicatrizes, físicas e simbólicas.

Enquanto o imaginário Adolf evangeliza o pequeno Jojo, sua mãe Rosie (Scarlet Johansson, História de um Casamento) convive com sua devoção a contragosto. Com o marido ausente, carinhosa e amorosa tanto quanto pode, ela cuida sozinha da casa e do filho, com uma consciência aguda dos tempos tenebrosos em que vive sua criança. Durante um de seus vários – e doces – passeios, os dois encontram cadáveres pendurados em praça pública. A câmera, na altura dos olhos de Jojo, como acontece aliás em várias sequências do filme, mostra apenas as pernas dos condenados. Quando ele pergunta para a mãe o que eles fizeram, ela responde: “Eles fizeram o que podiam”.

Rosie faz o que pode. Mantém as aparências enquanto trabalha secretamente para a Resistência e esconde uma garota judia no seu sótão. Elza (Thomasin McKenzie, O Rei) era amiga da sua filha falecida, irmã mais velha de Jojo. Afastado da Juventude Nazista pelos ferimentos, Jojo quer agora escrever um livro sobre os judeus. Quando descobre Elsa, no entanto, ele ganha não só uma amiga como ouve, no íntimo, o soar do alerta vermelho sobre o equívoco dos lados dessa guerra que ele jamais escolheu.

A sátira antibélica de Waititi venceu o Oscar e o Bafta de melhor roteiro adaptado,o disputado Prêmio do Público do Festival de Toronto, além de ser escolhido Filme do Ano pelo AFI (Instituto Americano de Cinema). 

Se Waititi se filia à tradição de comédias dramáticas sobre o nazismo, como O Grande Ditador (1940), de Charlie Chaplin, Os Produtores (1968), de Mel Brooks, e A Vida é Bela (1997), de Roberto Benigni, e ecoa Anne Frank e O Menino do Pijama Listrado (2008), ele o faz com brilho próprio, de seu tempo, de seu estilo, de seu mordaz humor agridoce e de sua ironia desconcertante. Dignos de uma autêntica peça do Teatro do Absurdo, mas no cinema.

Jojo Rabbit é realmente uma comédia de arte estranha. De uma beleza avassaladora e mãos dadas com o humor negro, o filme tem uma ternura e humanidade surpreendentes que transbordam da improvável história de amizade e afeto em tempos de cólera, estampada nos rostos dos atores, e sobretudo do Jojo de Roman, da Elsa de Thomasin, e de Yorki (Archie Yates), o gordinho, atrapalhado, bonachão - e extremamente sensato - melhor amigo “real” de Jojo.

Não perca a abertura, com a versão alemã do clássico dos Beatles, “I Wanna Hold Your Hand” (Eu quero segurar a sua mão) como pano de fundo para imagens verídicas de Hitler do documentário-propaganda Triunfo da Vontade (1935), de Leni Riefenstahl, que já prometem, ali mesmo, o que o filme entrega.

Não menos arrebatadora é a primeira cena de Jojo, em que ele se apresenta para nós, o público, olhando diretamente para a câmera. Jojo  e Waititi avisam que vão contar a sua história para cada espectador, olho no olho. Jojo Rabbit é uma preciosa pérola sobre a grande mãe da intolerância, a alienação - daqueles que não querem saber nem fazem o que podem.  




Trailer

Ficha Técnica

Título: Jojo Rabbit
Direção: Taika Waititi
Duração: 108 minutos

País de Produção/Ano: EUA/Nova Zelândia/República Tcheca, 2019
Elenco: Roman Griffin Davis, Thomasin McKenzie, Scarlett Johansson, Taika Waititi, Sam Rockwell, Rebel Wilson, Alfie Allen, Stephen Merchant, Archie Yates
Distribuição: 20th Century Studios

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Fátima Gigliotti

Fátima Gigliotti

Posts do Autor

Cinéfila incorrigível, jornalista, editora, professora (não muito), crítica (chatinha) de cinema e audiovisual. Trabalhou no jornal A Folha de São Paulo, na coleção Cinemateca Veja, nas revistas TVA, Ver Vídeo, Set, Querida e Preview.

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Comentários (1)

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Tema: Jojo Rabbit
5/5 (1)
 
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Janaína Rodrigues Martini
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0
Fev 2020
Primeiro
Janaína Rodrigues Martini diz...

Assisti ao filme e adorei. Como muito bem considerado na crítica acima, o filme expõe de forma cômica os absurdos do nazismo, (coisas que hoje nos parecem tão absurdas e que causaram mal enorme à humanidade), e prova que amor e ternura ainda são os melhores remédios em tempos de cólera . Impossível não fazer um paralelo com os absurdos fascistas que passaram a pontuar os dias atuais . Cômico, se não fosse trágico .

Admin:

Janaína, obrigada pelo comentário. Você tem toda razão. Muito pertinente sua colocação sobre o quanto o filme consegue ser atual e ir muito além do nazismo. Corroboramos sua mensagem: mais amor, menos guerra. 

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