quinta, 26 de maio de 2022
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Ryusuke Hamaguchi e a lei do desejo


Ryusuke Hamaguchi e a lei do desejo

“O desejo é o maior desafio para os parâmetros da conduta social.” A frase é do japonês Ryusuke Hamaguchi, um dos expoentes da nova geração do cinema asiático, que atraiu os holofotes de Hollywood com Drive My Car, vencedor do Oscar 2022 de Filme Internacional. Foi com Happy Hour (2015) e suas mais de cinco horas de duração, contudo, que ele começou a circular pelos grandes festivais. Com um olhar aberto sobre as relações humanas, o diretor e roteirista de 43 anos aborda o sexo com naturalidade, em diálogos e cenas nunca aleatórias. A libido ganha subjetividade em um cinema realista e moderno, que encontra o extraordinário no prosaico.

Hamaguchi não se apressa na arte de contar histórias. Há quem reclame de tédio em suas narrativas. Ele não liga. Não lhe interessa o óbvio e o imediato, e sim o que brota de situações aparentemente ordinárias. O aflorar tem seu tempo, ele bem sabe. O acaso, o livre arbítrio, a busca pelo amor, a traição, o luto e a esperança estão na primeira fila de uma obra ímpar. E para quem quiser degustar o sensível cinema deste japonês em franca ascensão, reunimos a seguir seus últimos três filmes, já disponíveis em streaming: Drive My Car (2021), Roda do Destino (2021) e Asako I e II ( 2018).


Drama
Drive My Car/Doraibu mai kâ

Drive My Car/Doraibu mai kâ

Vencedor do Oscar, do Bafta e do Globo de Ouro na categoria Melhor Filme Estrangeiro, premiado em Cannes, Toronto e em outra dezena de festivais, Drive My Car colocou a nova geração da cinematografia japonesa sob os holofotes. Dirigido por Ryusuke Hamaguchi, esse drama com três horas de duração é uma obra delicada, contemplativa, que demanda paciência e entrega do espectador. Adaptada do conto de Harumki Murakami, a trama acompanha o processo de luto de Yûsuke Kafuku (Hidetoshi Nishijima), mas é também uma história de amor, traição e arte, que ainda flerta com o policial.

Drive My Car/Doraibu mai kâ

Um prólogo de 40 minutos foca a relação entre o protagonista, que é ator e diretor de teatro, com Oto (Reika Kirishima), a esposa roteirista. Na cama, ela narra ao marido parte de seu novo projeto, um relato sensual que termina com uma cena de masturbação feminina. Oto é uma mulher linda, bem-sucedida e feliz no casamento, apesar da perda de uma filha. Um dia depois de descobrir um segredo sobre a mulher, porém, Kafuku fica viúvo de forma repentina. Só então os créditos de abertura preenchem a tela. A história avança dois anos e o traz de malas prontas para uma temporada em Hiroshima, onde vai assumir uma nova montagem de Tio Vânia, de Checkov.

Drive My Car/Doraibu mai kâ

Destruída pela bomba atômica durante a Segunda Guerra, a cidade da ilha de Honshu renasceu das cinzas e alcançou a modernidade. O diretor faz um sensível paralelo do cenário com o protagonista, ainda em cacos emocionalmente. A vida imita a arte também nos ensaios da peça, em um instigante jogo metalinguístico. Kafuku faz escolhas ecléticas para o elenco, como se bagunçasse a ordem natural. Para o papel de Sônia, sobrinha do protagonista, escala uma atriz muda. Para tio Vânia, elege um rapaz muito mais novo que o personagem, um jovem ator que lhe foi apresentado por Oto, dias antes da morte dela. Estão todos fora da zona de conforto.

Drive My Car/Doraibu mai kâ

Para Kafuku, não é nada agradável ser obrigado pela organização do evento a ceder a direção de seu xodó, um Saab 900 vermelho, para uma motorista, Misaki (Tôko Miura), moça calada e extremamente profissional. No trajeto diário para o teatro, eles ouvem o tape com a gravação de Tio Vânia que Oto fez especialmente para ajudar o marido a ensaiar as falas, quando ele mesmo protagonizou a peça. A voz suave de Oto será o elo de Misaki com a arte. Ela também enfrenta traumas pessoais, que o enredo desvenda sem pressa. Naquele pequeno casulo vermelho, esses dois seres machucados pela vida começam a se abrir. É lindo de ver.




Trailer

Ficha Técnica

Título: Drive My Car/Doraibu mai kâ
Direção: Ryusuke Hamaguchi
Duração: 180 minutos

País de Produção/Ano: Japão, 2021
Elenco: Hidetoshi Nishijima, Reika Kirishima, Tôko Miura
Distribuição: O2 Play


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Drama
Roda do Destino/Gûzen to sôzô

Roda do Destino/Gûzen to sôzô

Antes de ser celebrado em Hollywood com o Oscar 2022 de Filme Internacional por Drive My Car, o cineasta japonês Ryusuke Hamaguchi já circulava entre os queridinhos dos festivais internacionais. Roda do Destino venceu o Grande Prêmio do Júri no Festival de Berlim em 2021. Os três contos reunidos aqui são parte de uma antologia com sete histórias curtas que ele pretende levar às telas. O feminino banha as narrativas ambientadas em Tóquio, e que têm o acaso como motor de transformações na vida das personagens.

Roda do Destino/Gûzen to sôzô

O primeiro segmento começa dentro de um táxi, onde uma jovem conta à amiga sobre o homem por quem está apaixonada. A cada novo e picante detalhe, a outra chega à conclusão de que o sujeito é seu antigo namorado, que ficou péssimo quando terminaram. O segredo é mantido, mas ela procura o ex e nesse confronto Hamaguchi arma um jogo de poder e sedução em que ilumina o sentimento de posse e a dificuldade do desapego. O destino se encarrega do reunir os três em um desfecho moralmente justo.

Roda do Destino/Gûzen to sôzô

Com o desejo e o sexo como guia de sua cinematografia, o diretor brinca com o erotismo no segundo capítulo. Depois de uma transa quente, rapaz escala a namorada como isca de uma vingança contra o professor que o reprovou. Munida de um gravador, ela o procura e tenta seduzi-lo ao ler partes do romance erótico que o tornou best-seller. A reação dele e a conversa que se estabelece é de uma honestidade cortante, em que ambos baixam as armas e expõe questões íntimas. A delicadeza e o humor sutil desse bloco é notável.

Roda do Destino/Gûzen to sôzô

Um futuro em que a internet sofreu um bug e deu fim ao universo on-line é a inusitada moldura do último conto. Em Tóquio para uma reunião de ex-alunos, uma mulher cruza no metrô com outra e acredita ser seu amor de juventude. Agora uma pacata mãe de família, a moça convida a amiga para ir à sua casa. O diálogo criado por Hamaguchi é um revelador jogo de erros, em que a realidade – agora analógica – não é bem o que elas esperavam. Isso não as impede, porém, de compartilhar suas inquietudes.

Roda do Destino examina as intervenções do acaso em um mundo em que pouca gente se dá conta de que o trivial é o fundamental. O jovem cineasta japonês sabe que a grandiosidade está nas pequenas coisas e em surpresas da vida que, pelo livre arbítrio, podem, ou não, ser revertidas em agentes de mudanças. Seu cinema é ímpar, daqueles a se acompanhar cada passo.  




Trailer

Ficha Técnica

Título: Roda do Destino/Gûzen to sôzô
Direção: Ryusuke Hamaguchi
Duração: 121 minutos

País de Produção/Ano: Japão, 2021
Elenco: Kotone Furukawa, Ayumu Nakajima, Hyunri, Kiyohiko Shibukawa, Katsuki Mori, Shouma Kai
Distribuição: Pandora Filmes


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Romance
Asako I e II/Netemo Sametemo

Asako I e II/Netemo Sametemo

A tímida Asako se apaixona à primeira vista por Baku. Uma amiga dela mais descolada avisa que tem algo errado com aquele jovem belo e enigmático, e não dá outra. Um dia Baku diz que vai ali e já volta, mas desaparece.

A trama salta dois anos. Asako trocou a pacata Osaka por Tóquio, e é ali que um dia se depara com Ryohei, que é idêntico a Baku, mas de estilo diferente. Aí a gente se pergunta se são a mesma pessoa, se Baku é um caso médico de dupla personalidade ou se a semelhança é mera coincidência. O fato é que eles iniciam um romance.

Asako I e II/Netemo Sametemo

A adaptação do best-seller de Tomoka Shibasaki concorreu à Palma de Ouro em Cannes 2018, e caberia em um enredo hollywoodiano não fosse o diretor a revelação do cinema japonês, Ryusuke Hamaguchi (Happy Hour). A cadência de Asako I & II é a da cultura oriental. Não há arroubos emocionais, pelo menos não externamente. Cada passo, cada olhar, cada sorriso e cada lágrima tem seu tempo.

O amor entre Asako e Ryohei é genuíno, as revelações que envolvem o paradeiro de Baku chegam sem pressa, e a essa altura o público está absorto nos pormenores desse delicado romance juvenil, que merece ser descoberto. 




Trailer

Ficha Técnica

Título: Asako I e II/Netemo Sametemo
Direção: Ryusuke Hamaguchi
Duração: 119 minutos

País de Produção/Ano: Japão/França, 2018
Elenco: Masahiro Higashide, Erika Karata, Koji Seto, Sairi Itoh, Misako Tanaka,
Distribuição: Zeta Filmes


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Suzana Uchôa Itiberê

Suzana Uchôa Itiberê

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Cinéfila incorrigível, jornalista de plantão, crítica de cinema (não muito) chatinha e editora caprichosa. Cria do jornal O Estado de S. Paulo, trabalhou nas revistas TVA, Set, Istoé Gente e foi cofundadora da revista Preview. Membro da Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema).

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