Não dá para entender por que encasquetaram que o californiano Adam Driver convence como italiano. Ridley Scott o escalou para viver Maurizio Gucci, herdeiro da icônica dinastia da moda, em Casa Gucci (2021). Sobrou escárnio para cima do inglês com sotaque macarrônico do protagonista que, no fim, nem era o maior problema de um filme medíocre. Das passarelas para as pistas de corrida, agora é Michael Mann quem deposita as fichas no astro como outra lenda italiana, em Ferrari.
Indicado ao Oscar por Infiltrado na Klan (2018) e História de um Casamento (2019), Driver passa a maior parte do tempo escondido sob óculos escuros na pele do mitológico Enzo Ferrari (1898-1988), o homem por trás da marca. Novamente arranha o sotaque italiano – deixem apenas o inglês, pelo amor – e faz o que pode com um roteiro novelesco, inspirado na biografia homônima escrita pelo jornalista especialista em automobilismo Brock Yates (1933-2016). Ainda assim, é uma obra com classe.
Há dois conflitos centrais no recorte situado em 1957, quando o ex-piloto está com muitas liras a menos no caixa da empresa criada em 1939. A solução financeira parece estar nas pistas e Enzo aposta tudo na Mille Miglia, as mil milhas italiana. A pendenga pessoal é tão ou mais complicada. Embora melodramática, Penélope Cruz brilha como Laura, esposa e parceira pulso firme nos negócios, porém devastada pela morte do filho, Dino, de distrofia muscular. Além do luto e da crise no casamento, Enzo precisa administrar dois segredos: Lina (Shailene Woodley) e Piero, amante e filho bastardo, respectivamente. Pois é...
Se nem tudo soa legítimo na seara íntima de Ferrari, nas pistas a produção é irretocável. A Mille Miglia foi inteiramente realizada em estradas públicas. Era uma corrida contra o relógio, já que os carros eram liberados em intervalos de um minuto. Os bastidores ressaltam a disputa com a Maserati, e o time de pilotos inclui o astro Patrick Dempsey, também corredor e dono de equipe fora das telas, e o brasileiro Gabriel Leone. Em sua estreia internacional, ele interpreta o espanhol Alfonso de Portago, que entrou para a história por conta de um trágico acidente, recriado em uma sequência brutal e de tirar o sono. Em tempo: Leone será Ayrton Senna em minissérie da Netflix prevista para estrear este ano.
Ferrari fez sua estreia mundial no Festival de Veneza e dividiu a crítica. Também não emplacou nenhuma indicação ao Oscar, mas tem qualidades e merece atenção. Michael Mann é cineasta e produtor de obras grandes e elegantes. Conduziu Daniel Day-Lewis em O Último dos Moicanos (1992), reuniu Al Pacino e Robert De Niro em Fogo Contra Fogo (1995), colocou Will Smith no topo em Ali (2001) e garantiu sete indicações ao Oscar para O Informante (1999). Não é pouca coisa e Ferrari entra para essa lista com dignidade.
Trailer
Ficha Técnica
Título: Ferrari
Direção: Michael Mann
Duração: 130 minutos
País de Produção/Ano: EUA, Reino Unido, Itália, China, 2023
Elenco: Adam Driver, Penélope Cruz, Shailene Woodley, Gabriel Leone, Patrick Dempsey, Jack OConnell
Distribuição: Diamond Films
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