sábado, 27 de fevereiro de 2021

Rir pra Não Chorar


Rir pra Não Chorar

Na história do cinema italiano, a comédia sempre foi um gênero clássico, porque o domínio de aproximar as fronteiras do trágico e do cômico sempre foi uma arte para atores e realizadores do país. Bangla e Lúcia Cheia de Graça seguem a tradição, mas a reveste de um olhar contemporâneo e estilo próprio.

Ainda dá tempo de conferir os dois filmes no último dia de programação da 8 ½ Festa do Cinema Italiano, em Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Niterói, Porto Alegre, Rio de Janeiro, São Paulo e Recife. Quem mora em Belém, Florianópolis, Goiânia, Salvador, Vitória, Fortaleza, Londrina e Natal, tem de 15 a 21 para se divertir com as atrações do evento.


Comédia
Bangla

Bangla

Há um frescor adorável na estreia do jovem Phaim Bhuiyan, que aos 22 anos dirige, escreve e protagoniza esta comédia de traços autobiográficos. Afinal, o personagem principal tem o nome do cineasta, que no filme é um italiano cuja família imigrou de Bangladesh diretamente para Torpignattara, nos subúrbios de Roma. Para lá também convergiram os hispters e os idosos, as três “gangues” do bairro, cujas paredes são cobertas de arte de rua e, como diz Phaim, têm cheiro de lasanha, curry e kebab, tudo misturado. 

Seguidor dos rígidos costumes muçulmanos da família, vigia em um museu, músico nas horas vagas numa banda de amigos que toca em festas da comunidade, Phaim tem problemas em seguir o preceito religioso da abstinência sexual antes do casamento. A situação fica muito pior quando encontra Asia (Carlotta Antonelli), uma garota descolada, de pais modernos e italianos, ainda por cima.

É o romance a isca narrativa em torno da qual Bangla apresenta divertidas situações da vida de Phaim e seus relacionamentos com a família, os amigos, o bairro e, sobretudo, o seu tempo e o seu lugar. O roteiro inteligente, ágil, direto, brinca com os estereótipos socioculturais e se apoia um bom tanto na figura cartunesca de Phaim – ora lembrando um juvenil Woody Allen, ora uma outra autobiografia fílmica de imigrante, o ator Kumail Nanjiani, no filme Doentes de Amor (2017).

Enquanto busca se encontrar nas tênues fronteiras entre tradição e realidade, família e individualidade, religião e desejo, o diretor    e seu personagem – que conversam com a câmera, quebrando a famosa quarta parede entre ator e espectador - nos levam num passeio inusitado e surpreendente por uma Itália contemporânea, de paisagem remodelada, também às voltas com a sua própria crise de identidade. Bangla recebeu o Globo de Ouro italiano de Melhor Filme de Estreia, e o prêmio Nastro D'Argento de Melhor Comédia, concedido pela associação dos críticos de cinema do país.




Trailer

Ficha Técnica

Título: Bangla
Direção: Phaim Bhuiyan
Duração: 87 minutos

País de Produção/Ano: Itália, 2019
Elenco: Phaim Bhuiyan, Carlotta Antonelli, Pietro Sermonti, Shaila Mohiuddin, Nasima Akhter, Rishad Noorani
Distribuição: 8 ½ Festa do Cinema Italiano


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Comédia
Lucia Cheia de Graça/Troppa Grazia

Lucia Cheia de Graça/Troppa Grazia

O diretor Gianni Zanasi, que teve seu filme Nem Pensar (2007) exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, comentou em entrevistas que o humor de Lucia Cheia de Graça talvez seja italiano demais para ecoar como comédia em outras culturas. Talvez ele tenha razão, ou talvez seu filme mais recente seja mesmo mais dramático do que ele gostaria. A produção foi exibida no encerramento da Quinzena dos Realizadores no Festival de Cannes 2018, de onde saiu com o prêmio Label Europa Cinemas, concedido a obras que se destacam no cenário europeu e recebem incentivo para distribuição no continente.

É no mínimo curiosa a história da topógrafa Lucia (Alba Rohrwacher, A Bela que Dorme), que nasceu e sempre viveu numa pequena cidade do interior da Itália (as filmagens foram em Viterbo, na belíssima região do Lácio). Mãe solteira muito jovem, ela acaba de terminar o casamento com Arturo (Elio Germano, O Rei de Roma) sem uma situação econômica estável. É quando lhe oferecem um trabalho importante, para mapear uma área da região em que vai se instalar um grande complexo imobiliário, mas Lucia precisa “mascarar” as medidas para viabilizar o empreendimento.

Dividida entre seu conhecido rigor moral e a necessidade, sensibilizada com a recente separação, Lucia começa a ter estranhas visões da Virgem Maria, com quem tem conversas e discussões, no mínimo, inusitadas. Entre o psiquiatra, os boatos maldosos da cidade e a ganância dos patrões, Lucia tenta se equilibrar numa corda cada vez mais bamba, que afeta diretamente Rosa, sua filha adolescente já naturalmente mal-humorada, e o ex-marido.

Com sua atriz principal em estado de graça, e um elenco de apoio à altura, Zanasi filma as amplas distâncias da paisagem e a simplicidade da vida no vilarejo como reflexos dos espaços internos de sua Lucia. Como ela, o diretor também se equilibra – ou tenta - numa corda bamba entre realismo e fantástico, realidade e alucinação, fatos e ilusão. O principal efeito de Lucia Cheia de Graça é de perplexidade. Se isso é bom ou não, vai depender da empatia de cada um com a jornada de Lucia. Essa é a terra firme do filme e de Zanasi.




Trailer

Ficha Técnica

Título: Lucia Cheia de Graça/Troppa Grazia
Direção: Gianni Zanasi
Duração: 110 minutos

País de Produção/Ano: Itália/Espanha/Grécia, 2018
Elenco: Alba Rohrwacher, Carlotta Natoli, Elio Germano, Giuseppe Battiston, Hadas Yaron, Thomas Trabacchi
Distribuição: 8 ½ Festa do Cinema Italiano


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Fátima Gigliotti

Fátima Gigliotti

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Cinéfila incorrigível, jornalista, editora, professora (não muito), crítica (chatinha) de cinema e audiovisual. Trabalhou no jornal A Folha de São Paulo, na coleção Cinemateca Veja, nas revistas TVA, Ver Vídeo, Set, Querida e Preview.

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