Alter ego de Wim Wenders em O Estado das Coisas (1982), o ator belga Patrick Bauchau dá a sua versão para o título do documentário Wim Wenders, Desperado. “Desperado é o incauto que pula do céu em queda livre, sem saber ao certo onde vai cair, mas, se sobreviver, é capaz de chegar muito perto do alvo.” Fazer um filme com o cultuado cineasta alemão é um salto de fé. Isso é unanimidade nos depoimentos de artistas, produtores e técnicos. O próprio diretor admite que não gosta de roteiros prontos. Acha fascinante a história ganhar vida junto com a própria vida. O road movie Paris,Texas (1984), por exemplo, tomou forma literalmente na estrada, durante as filmagens. A ousadia deu certo e lhe rendeu Palma de Ouro em Cannes.

A verve orgânica é uma das faces desse artista de espírito aventureiro, que pensava em ser pintor quando deixou sua natal Düsseldorf aos 18 anos, e se mudou para um quartinho de 20 metros quadrados em Paris. Foi ali que percebeu que sua câmera poderia ser uma tela para quadros diferentes. Imagens feitas com a Super 8 que ganhou do pai estão entre as preciosidades dessa produção descrita pelos diretores Eric Fiedler e Andreas “Campino” Frege como uma “meditação intimista sobre o trabalho de um visionário que soube refletir o espírito de sua geração”.
Wenders é objeto de estudo e personagem. Sempre “on the road”, revisita locações e recria ele próprio cenas de seus filmes. É pura poesia vê-lo repetir os passos dos anjos Damiel (Bruno Ganz) e Cassiel (Otto Sander) em Asas do Desejo (1987), premiado com a Palma de direção em Cannes. A esse retorno ao passado, os cineastas contrapõe a monumental instalação montada em 2019 no Grand Palais em Paris, com projeções majestosas de cenas de seus filmes pelas paredes. A quinta e atual esposa, a fotógrafa Donata Wenders, diz que o agora senhor de 75 anos esbanja vitalidade. “Wim é um navio a vapor sempre em movimento, esteja eu atracada a ele ou não”.

Emociona seu encontro com o conterrâneo e amigo Werner Herzog (Nosferatu: O Vampiro da Noite), em um papo divertido em Los Angeles, sobre as parcerias nas décadas de 1960 e 1970, quando se tornaram expoentes do novo cinema alemão. A paixão pelos Estados Unidos ganha um episódio curioso, quando Wenders viu seu “sonho americano” tornar-se pesadelo nas filmagens do noir Hammett – Mistério em Chinatown (1982), produzido pela American Zoetrope, de Francis Ford Coppola. O estilo “cinema livre” não se encaixou no regrado esquema do diretor de Apocalipse Now. Foram brigas, desavenças e um fracasso retumbante na bilheteria – mas a amizade (os dois garantem) sobreviveu.
O Estado das Coisas, citado no início, justamente sobre os conturbados bastidores de um filme, foi a forma de Wenders exorcizar a traumática experiência. Astros como Willem Dafoe (O Farol) e Andie MacDowell (Quatro Casamentos e Um Funeral) deixam seu testemunho sobre o cineasta. Mas é da icônica cantora e poetisa Patti Smith que vem a melhor colocação. Ao saber da explicação de Patrick Bauchau para a palavra Desperado, ela arremata: “Wim poder até saltar em queda livre, mas Patrick se esqueceu de um detalhe. Antes de chegar ao chão, suas asas se abrem”.
Trailer
Ficha Técnica
Título: Wim Wenders, Desperado
Direção: Eric Fiedler, Andreas “Campino” Frege
Duração: 120 minutos
País de Produção/Ano: Alemanha, 2020
Elenco: Wim Wenders, Francis Ford Coppola, Patti Smith, Willem Dafoe, Werner Herzog, Andie McDowell, Dennis Hopper
Distribuição: É Tudo Verdade
