Respiro não é só o título dessa produção italiana, vencedora do Grande Prêmio da Semana da Crítica no Festival de Cannes 2002. Respiro é também a sensação do espectador em tempos de pandemia, ao se ver transportado para um vilarejo na Ilha de Lampedusa, no sul da Itália. O retorno é para um passado não tão longínquo, mas a comunidade vive distante da tecnologia. Que respiro ver as crianças dali achar a maior arte caçar e comer passarinhos, que brincar de trem elétrico é o máximo. A briga entre as “gangues” infantis se resume a um arrancar a roupa do outro - os perdedores voltam para casa pelados, pouco preocupados e prontos para dar o bote na revanche.
Dois desses meninos, os irmãos Filippo e Pasquale, são filhos de Grazia, a protagonista interpretada por Valeria Golino (Retrato de uma Jovem em Chamas). Mãe também da adolescente Marinella e casada com o másculo pescador Pietro (Vincenzo Amato), Grazia é uma mulher inquieta, de espírito livre e sofre de um transtorno mental que não ganha nome, mas parece bipolaridade. Para a conservadora população local, porém, ela não passa da lunática que gosta de nadar nua nas águas do Mediterrâneo e que provoca o caos ao soltar um bando de cães pelas ruas.
Para o roteirista e diretor Emanuele Crialese, porém, Grazia simplesmente não se encaixa nos moldes daquele tempo, daquele lugar. É com lirismo que ele explora essa inadequação. Quando a chance de ser internada em Milão se torna real, é o filho Pasquale que toma a dianteira para protegê-la, com uma artimanha arriscada que provoca efeitos inesperados. Nessa virada narrativa, a religiosidade ganha peso e o cineasta passa então a examinar como o mistério que envolve o sumiço de Grazia transforma o olhar das pessoas sobre aquela mulher antes tão condenável e indesejada.
O desfecho peca por um certo simplismo, mas faz sentido. Passadas quase duas décadas da produção, Respiro ganha um toque nostálgico com uma história, digamos, desplugada – e talvez por isso mesmo tão agradável. O que não significa datada. Em que pese o inegável desequilíbrio mental de Grazia, a personagem é arquétipo dos incompreendidos, dos que fogem aos padrões e, principalmente, da mulher subjugada por um machismo enraizado não só entre os homens. Atual e atemporal.
Trailer
Ficha Técnica
TÃtulo: Respiro
Direção: Emanuele Crialese
Duração: 95 minutos
PaÃs de Produção/Ano: Itália/França, 2002
Elenco: Valeria Golino, Vincenzo Amato, Francesco Casisa
Distribuição: Zeta Films