Não deu para o brasileiro Democracia em Vertigem, mas a premiação de Indústria Americana com o Oscar 2020 de melhor documentário não foi exatamente uma surpresa. Concorrendo ainda com duas produções ambientadas na atual e sangrenta guerra da Síria, The Cave e For Sama, e o elogio macedônio à natureza de Honeyland, o documentário da recém-lançada produtora Higher Ground, de Barack e Michelle Obama, ganhou a disputada estatueta com o impactante registro do choque de culturas empresariais, e existenciais, entre China e Estados Unidos, Oriente e Ocidente, que mimetiza o macrocosmo da economia e da política mundiais.
Trabalho dedicado de anos dos diretores Steven Bognar e Julia Reichert, o filme retrata a instalação e o início da produção de uma fábrica, em solo americano, da empresa chinesa Fuyao, uma das maiores produtoras de peças de vidro para automóveis do mundo. O gigantesco galpão, situado em Dayton, Ohio, estava praticamente abandonado quando foi comprado em 2014, com incentivos fiscais. Antes da crise de 2008, abrigava uma das unidades mais produtivas da General Motors, que não apenas fechou as portas, mas milhares de vagas de trabalho. A mesma dupla de cineastas explorou o tema no documentário de curta-metragem The Last Truck: Closing of a GM Plant (2009), também indicado ao Oscar.
A confiança que Bognar e Julia conquistaram dos chineses é admirável. Com detalhes expressivos e reveladores, eles registraram o nascimento e a consolidação da produção, os conflitos de gestão e da maneira de ver a vida e o trabalho. Entraram nas festas da firma, no evento de inauguração, acompanharam as viagens da equipe americana à China, reuniões com o bilionário presidente Cao Dewang, o treinamento dos funcionários americanos pelos chineses, o dia a dia da produção, as diferenças e semelhanças entre os trabalhadores imigrantes chineses e locais, seu relacionamento dentro e fora do chão da fábrica.
O fio condutor da grandiosa realização é o trabalho e o trabalhador, os mais afetados e as maiores vítimas da conjuntura sociopolítica e econômica global. Na China trabalho é vida, direitos trabalhistas inexistem sob a égide de um governo amalgamado com a indústria, pais e mães trabalhadores veem os filhos duas vezes por ano. Na América, a hora paga pela Fuyao é de US$ 12, quando a GM pagava US$ 29, sindicalização é terminantemente proibida, as medidas de segurança para um trabalho de alto risco são precárias. Mesmo assim, há esperança e entusiasmo entre os moradores da região com a oportunidade de trabalho.
O objetivo do presidente da Fuyao, além do lucro, claro, é político-institucional. Ele quer abrir mercado e provar a capacidade de adaptação da indústria chinesa a novos mercados. Na prática, a teoria é outra. A rigidez da gestão, a inflexibilidade aos direitos humanos e trabalhistas, a diferença dos valores empresariais e culturais provocam tropeços consideráveis, cuja solução é “desamericanizar” a liderança. A comparação com os burros – que alisados na direção do pelo são facilmente domesticáveis – é usada no treinamento dos recursos humanos dos funcionários chineses, em relação aos colegas americanos.
Nesse contexto, as reinvindicações trabalhistas, inevitáveis, são resolvidas com demissões, ameaças de desemprego e a temida automação. Não se atenta quase nada para a imagem negativa da empresa na região e no país, também ela passível de manipulação pelo capital. Afinal, é o investimento externo que fala mais alto, e o presidente Dewang sabe disso. Se Indústria Americana fosse uma ficção, abriria a possibilidade de manipulação dramática para favorecer o lado norte-americano do filme. Ainda que sempre haja uma ordem narrativa no documentário, das imagens na tela pode-se dizer que a ironia inicial do título acaba se traduzindo num perturbador e alarmante diagnóstico do futuro. Um filme necessário.
Fique ligado: já está disponível na Netflix também Indústria Americana: Uma Conversa com Michelle e Barack Obama, em que o casal conversa com a dupla de diretores sobre o documentário e a importância de contar histórias.
Trailer
Ficha Técnica
TÃtulo: Indústria Americana/American Factory
Direção: Steven Bognar, Julia Reichert
Duração: 110 minutos
PaÃs de Produção/Ano: EUA, 2019
Elenco: Junming Wang, Robert Allen, Sherrod Brown
Distribuição: Netflix