terça, 11 de maio de 2021

Meu Pai


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Fora seis indicações ao Oscar e duas vitórias: melhor roteiro adaptado e melhor ator, o que torna Anthony Hopkins, aos 83 anos, no ator mais velho a ser premiado com a estatueta. Merecidíssimo. Meu Pai é de uma sofisticação ímpar. Essa pequena obra-prima teve sua gênese nos palcos franceses. Premiada com o Molière de melhor peça em 2014, Le Père (O Pai) é uma criação do escritor e dramaturgo parisiense Florian Zeller, que comanda a adaptação em sua estreia como cineasta. Ele parte das reminiscências de sua juventude ao lado da avó com Alzheimer para contar a história de pai e filha em momento de encruzilhada. Anne (Olivia Colman, vencedora do Oscar por A Favorita) avisa ao pai, Anthony (Anthony Hopkins, vencedor do Oscar por O Silêncio dos Inocentes), que vai morar com seu novo amor em Paris, mas não sem antes deixá-lo em Londres assistido por uma cuidadora.

Essa é a linha reta da narrativa, mas é por caminhos sinuosos que ela chega ao espectador. Porque a perspectiva é de Anthony, que apresenta sinais claros do Alzheimer, como perda progressiva da memória, mudança de humor e desorientação. Com uma mise-en-scène engenhosa, o diretor coloca o público em posição ativa, como se estivesse na cabeça do personagem. O cenário é praticamente um só, o apartamento em que ele mora com a filha Anne, e do qual acredita ser proprietário. Ali é apresentado à jovem cuidadora Laura (Imogen Poots, série I Know This Much is True), pois a anterior o acusou de agressão. A moça o faz lembrar da filha caçula, de quem reclama por não vir visitá-lo.

O apartamento é personagem. Não só o ambiente se transforma sem aviso - mudança de cores, disposição de móveis e objetos - como há um entra e sai de pessoas que Anthony não tem certeza de quem são, entre elas Paul (Rufus Sewell, Judy – Muito Além do Arco Íris), o marido de Anne. O público entra nesse labirinto mental junto com o protagonista, tentando encaixar as peças de um quebra-cabeça ajambrado minuciosamente, e no qual tempo e espaço estão em constante metamorfose. Os figurinos também são elementos atuantes de um enredo enigmático, embalado pela cortante trilha sonora do italiano Ludovico Einaudi.

Le Père, a peça, teve montagens mundo afora. A da Broadway rendeu o Tony de melhor ator para Frank Langella, e no Brasil foi encenada em 2016, com Fulvio Stefanini. Houve até uma livre versão para o cinema, a produção francesa A Viagem de Meu Pai, também disponível em streaming. Meu Pai, o filme, é um projeto pessoal de Florian Zeller, que escreveu o roteiro em parceria com o britânico Christopher Hampton, ele também um dramaturgo que migrou para o cinema como roteirista de sucessos como Desejo e Reparação e Ligações Perigosas – este último lhe rendeu Oscar.

O motivo para Zeller transpor o texto original para o inglês é um só: Anthony Hopkins. O desejo de ter o ator no papel principal era tão forte que ele mudou o nome do personagem, de Andre para Anthony. Hopkins vem de uma safra de atuações protocolares em filmes recentes como Busca Sem Limites e Má Conduta. Desde que atuou sob a batuta de Fernando Meirelles em Dois Papas, parece ter resgatado o furor dos bons tempos de O Silêncio dos Inocentes e Nixon. No caminho contrário do emblemático Hannibal Lecter, sempre em controle da situação, o Anthony de Meu Pai é um homem vulnerável.

Mais de 50 milhões de pessoas no mundo sofrem de demência, e a previsão é de que esse número triplique até 2050, com o envelhecimento populacional. Esse mal já foi abordado com delicadeza em filmes como o premiado Amor, Ella e John e Para Sempre Alice, mas nenhum trouxe o olhar do próprio paciente. Meu Pai é uma obra magistral, lapidada por um cineasta cuja própria experiência mostrou que amar não é suficiente para aplacar os desafios da doença. É esse mesmo amor, porém, que impulsiona Anne a lidar com a doída inversão de papéis e buscar ajuda para amparar o pai, que a cada dia perde um fio da conexão com a realidade e consigo mesmo. A compaixão é peça primordial nesse quebra-cabeça que, montado, pede uma reflexão cuidadosa sobre o estigma do Alzheimer.




Trailer

Ficha Técnica

Título: Meu Pai/The Father
Direção: Florian Zeller
Duração: 97 minutos

País de Produção/Ano: Reino Unido/França, 2020
Elenco: Anthony Hopkins, Olivia Colman, Mark Gatiss, Imogen Poots, Rufus Sewell, Olivia Williams
Distribuição: Califórnia Filmes

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Suzana Uchôa Itiberê

Suzana Uchôa Itiberê

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Cinéfila incorrigível, jornalista de plantão, crítica de cinema (não muito) chatinha e editora caprichosa. Cria do jornal O Estado de S. Paulo, trabalhou nas revistas TVA, Set, Istoé Gente e foi cofundadora da revista Preview. Membro da Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema).

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