sábado, 27 de fevereiro de 2021

Uma Noite em Miami


Uma Noite em Miami
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Não é à toa que a estreia na direção de longas da premiada atriz Regina King (Se a Rua Beale Falasse) tem gerado altas expectativas na temporada de premiações 2021. A adaptação da peça homônima de Kemp Powers (Soul), cujo roteiro ele também assinou, é primorosa. Powers fisgou um naco de informação em uma biografia de Muhammad Ali – a comemoração do primeiro título mundial de peso-pesado do então chamado Cassius Clay, aos 22 anos, que começou numa reunião com três amigos num hotel.

Mas não eram três amigos quaisquer. Na noite de 25 de fevereiro de 1964, já em posse da faixa de campeão, Clay (Eli Goree, Raça) encontra-se com o jogador-sensação da NFL, a Liga de Futebol Americano, Jim Brown (Aldis Hodge, O Homem Invisível), o cantor rei do soul, Sam Cooke (Leslie Odom Jr., Assassinato no Expresso do Oriente) e Malcolm X (Kingsley Ben-Adir, série Peaky Blinders). De segunda categoria, o quarto do hotel hospedava o polêmico líder negro muçulmano, que tinha dois guarda-costas a seu dispor. Uma Noite em Miami... imagina como seria esse encontro entre quatro paredes com as quatro estrelas afro-americanas do esporte, da música e da política dos anos 1960.

A força do roteiro ao criar os diálogos entre os amigos é inegável. Instigados por Malcolm X, eles conversam sobre suas experiências de negritude, as dificuldades para vencer e se destacar em meio à elite racista e sua visão de mundo e de sucesso. Dissonantes, essas quatro vozes se harmonizam num retrato profundo, complexo e multifacetado do preconceito, do racismo, da injustiça da sociedade norte-americana da época. Elas atravessam o futuro deles e chegam, quase intactas, ao presente. Esse, do movimento #BlackLivesMatter e do assassinato brutal de George Floyd em Minneapolis, Estados Unidos, em maio de 2020.

O desafio de Regina King na direção de um texto tão exemplar era imenso. Ela o venceu com performances eletrizantes de seu elenco principal e uma encenação ágil, que imprimiram naturalidade, emoção e intensidade à narrativa já lapidada pelo roteiro. É instigante testemunhar o humanismo à flor da pele do verborrágico Malcolm X, o porte e a inocência do jovem boxeador Clay, a rebeldia desconfiada de Jim Brown, e a rivalidade dolorida do talentoso Sam Cooke. Mais ainda, o afeto entre eles, verdadeiro e amargo, que ultrapassa o vidro da telinha e escorre até nós, num misto de impossibilidade e amor.

Os quatro conversam no quarto, sobem ao telhado num momento de tensão, Clay e Cooke vão comprar bebidas em outro, enquanto Malcolm e Brown passam suas diferenças a limpo. Assim, e com a contrapartida musical que o personagem de Sam Cooke oferece, Regina King cria ritmo, diversifica a interlocução, deixa o ar entrar na encenação e abre as nuances do vermelho, amarelo e marrom predominantes na ótima fotografia. Uma Noite em Miami... foi o primeiro filme de uma diretora negra a ser selecionado e exibido no Festival de Cinema de Veneza. Há o que comemorar, sem dúvida. Mas o chamado de Malcolm X a seus amigos, que está no âmago do filme, para que eles usassem seus status na luta pelos direitos dos negros, continua a ecoar, necessário e urgente.




Trailer

Ficha Técnica

Título: Uma Noite em Miami/One Night in Miami
Direção: Regina King
Duração: 114 minutos

País de Produção/Ano: EUA, 2020
Elenco: Kingsley Ben-Adir, Eli Goree, Aldis Hodge, Leslie Odom Jr., Lance Reddick, Christian Magby, Joaquina Kalukango, Beau Bridges
Distribuição: Amazon Prime

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Fátima Gigliotti

Fátima Gigliotti

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Cinéfila incorrigível, jornalista, editora, professora (não muito), crítica (chatinha) de cinema e audiovisual. Trabalhou no jornal A Folha de São Paulo, na coleção Cinemateca Veja, nas revistas TVA, Ver Vídeo, Set, Querida e Preview.

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