segunda, 18 de janeiro de 2021

Pacarrete


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Foi uma ovação jamais vista na história do Festival de Gramado. Pacarrete recebeu as primeiras palmas ainda no prólogo, em que Marcélia Cartaxo surge como a bailarina idosa a dar seus passos na calçada da própria casa. Ao final da première nacional do filme do cearense Allan Deberton, os aplausos perduraram por tanto tempo que elenco e realizador ali presentes ficaram espantados com a recepção. Foi uma noite inesquecível, num já saudoso 2019, e coroada dias depois com 8 Kikitos: melhor filme, melhor filme júri popular, direção, atriz, roteiro, ator coadjuvante, atriz coadjuvante e desenho sonoro. Pacarrete é obra-prima.

Uma mescla da fantasiosa Amélie Poulain com a língua afiada Dercy Gonçalves, Pacarrete existiu de verdade. Nasceu e cresceu em Russas. Apaixonada pela França – paquerrete é margarida em francês –, desde cedo alimentou o sonho de ser artista e viver a vida na ponta da sapatilha. Seus desejos não cabiam no pequeno e conservador município cearense, e foi em Fortaleza que conseguiu brilhar como bailarina clássica e se tornar professora de balé. Não era essa a história que Allan Deberton ouvia dos habitantes de Russas, para onde Pacarrete voltou após a aposentadoria e ali ganhou a fama de “a louca da cidade”.

Que ela era uma senhora rabugenta, não há dúvida. Costumava xingar e bater com a vassoura em quem “invadisse” sua calçada. O gênio explosivo, porém, era também uma reação por ver seu legado artístico como bailarina desvalorizado. No filme, Pacarrete planeja fazer um espetáculo de balé nas comemorações dos 200 anos de Russas, mas a secretária de cultura quer algo popular. Mesmo assim, segue com os preparativos, da confecção do tutu (a saia rodada) aos ensaios. A irmã Chiquinha (Zezita Matos) e a empregada Maria (Soia Lira) acompanham desconfiadas de que ela está delirante. Assim como Miguel (João Miguel), o jovem e bondoso dono do bar por quem Pacarrete tem uma paixonite.

Em 1986, Marcélia Cartaxo ganhou o Urso de Prata de melhor atriz em Berlim pela protagonista de A Hora da Estrela, adaptação de Suzana Amaral para a obra de Clarice Lispector. Se a sofredora Macabéa se tornou ícone de mulheres “invisíveis” e vítimas da disparidade social, Pacarrete é símbolo de resistência. A primorosa composição, que incluiu aulas de balé e horas de maquiagem de envelhecimento, tem na voz rouca e estridente a cereja do bolo. Pacarrete grita por reconhecimento, pela valorização da cultura e pelo respeito ao idoso. É uma atuação magistral.

Estreante em longas, Allan Deberton emoldura sua protagonista em um universo felliniano, com paleta de cores fortes e uma divertida excentricidade. Ele trabalhara com Marcélia em seu primeiro curta, Doce de Coco, no qual ela atuou e fez a preparação do elenco. A relação de confiança é nítida. Allan conduz Pacarrete entre a alegria e a melancolia. Seu olhar é como o de Miguel, de compreensão, pesar e admiração. Pacarrete é uma personagem apaixonante, que já tem seu lugar nos anais do cinema brasileiro.

Na entrevista a seguir, a estrela e o cineasta contam detalhes dos bastidores.




Trailer

Ficha Técnica

Título: Pacarrete
Direção: Allan Deberton
Duração: 97 minutos

País de Produção/Ano: Brasil, 2019
Elenco: Marcélia Cartaxo, João Miguel, Zezita Matos, Soia Lira, Samya De Lavor, Rodger Rogério, Edneia Tutti
Distribuição: Vitrine Filmes

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Suzana Uchôa Itiberê

Suzana Uchôa Itiberê

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Cinéfila incorrigível, jornalista de plantão, crítica de cinema (não muito) chatinha e editora caprichosa. Cria do jornal O Estado de S. Paulo, trabalhou nas revistas TVA, Set, Istoé Gente e foi cofundadora da revista Preview. Membro da Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema).

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