quarta, 02 de dezembro de 2020

Dois Papas


Dois Papas
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Netflix

Talvez fosse mesmo essencial que a história de Dois Papas ganhasse a direção de um brasileiro. Afinal, dos cerca de 1,3 bilhão de católicos no mundo, perto de 10% são brasileiros. A Netflix escalou um brazuca fera, Fernando Meirelles, que já fez o grande escritor José Saramago chorar ao assistir à adaptação para o cinema de seu livro Ensaio Sobre a Cegueira. Indicado ao Oscar de direção por Cidade de Deus (2002) e ao Globo de Ouro na mesma categoria por O Jardineiro Fiel (2006), o cineasta adicionou humor e leveza inesperados no retrato de um momento crítico da Igreja.

Em fevereiro de 2013, o Papa Bento XVI, o austríaco Joseph Ratzinger (Anthony Hopkins, da trilogia Thor), renunciou ao cargo. No mês seguinte, o argentino Jorge Bergoglio (Jonathan Pryce, de A Esposa) foi eleito seu sucessor, como Papa Francisco. Ainda em março, dia 23, o Papa emérito recebeu o Papa Francisco em sua casa de veraneio, o palácio de Castel Gandolfo. O encontro entre dois Papas foi um episódio inédito na história do catolicismo. Reinou a cordialidade, claro, mas nos bastidores do Vaticano era sabido que eles discordavam basicamente em tudo. Essa é a realidade. Dois Papas entra em terreno ficcional. No filme, Bergoglio vai a Roma pedir autorização para se aposentar, sem imaginar que Ratzinger já planejava renunciar.

Os diálogos nasceram da mente brilhante de Anthony McCarten, roteirista dos premiados Bohemian Rhapsody, A Teoria de Tudo e O Destino de Uma Nação, que aqui adapta a própria peça de teatro para as telas. De família fervorosamente católica, McCarten preencheu as lacunas narrativas com uma intensa pesquisa de entrevistas e reportagens sobre os espinhosos temas abordados pelos pontífices. A tensão entre eles é tangível. O que Meirelles faz? Quebra o climão com uma descontraída trilha sonora que reúne clássicos do Abba, dos Beatles, tango e canções populares como “Besame Mucho” e “Bela Ciao”.

Sem permissão para filmar na Capela Sistina sob os traços magnânimos do afresco de Michelangelo, a Netflix simplesmente a recriou em cenário nos famosos estúdios Cinecittà, em Roma, além de reproduzir o vigor e o colorido de Buenos Aires nos anos 1960 e 1970 com autêntico frescor. Essa volta ao passado resgata os anos de chumbo na Argentina e o polêmico relacionamento do jovem Bergoglio com agentes da ditadura.

Apoiados nas atuações de Pryce e Hopkins, irretocáveis na composição dos protagonistas até nas múltiplas línguas e sotaques, Meirelles e McCarten transformam os encontros entre o Papa Bento XVI e o então cardeal Bergoglio em fascinantes duelos verbais. Nos corredores e jardins do Vaticano, com uma parada na Capela Sistina, e depois no Castel Galdolfo, eles conversam sobre a fé e o seu exercício sob o manto da Igreja Católica, cindida entre a tradição e a modernidade, e abalada sobretudo pela perda de fiéis, os escândalos de abuso sexual de menores e desvios de fundos do Vaticano.

Do embate entre representantes de duas vertentes aparentemente opostas emergem dois homens com virtudes e fraquezas, capazes de dialogar, atenta e cordialmente, e buscar o melhor caminho para as circunstâncias que os cercam. É nesse sentido que a produção ganha contornos de um buddy movie, filme de amigos, e se torna supreendentemente terna e divertida, conciliadora e exemplar. Dois Papas está na briga por quatro Globos de Ouro: melhor filme, ator (Jonathan Pryce), ator coadjuvante (Anthony Hopkins) e roteiro (Anthony McCarten). Deve fazer bonito também no Oscar. Fernando Meirelles disse na mesa redonda de diretores da atual temporada de premiações, organizada pela publicação The Hollywood Reporter, ao lado de, simplesmente (que orgulho!), Martin Scorsese (O Irlandês), Todd Phillips (Coringa), Noah Baumbach (História de um Casamento) e Greta Gerwig (Adoráveis Mulheres), que se envolveu com o projeto pela simpatia com a atuação do Papa Francisco, em favor “de construir pontes em vez de muros”. A mensagem é clara, contundente e comovente.




Trailer

Ficha Técnica

Título: Dois Papas/The Two Popes
Direção: Fernando Meirelles
Duração: 129 minutos

País de Produção/Ano: Argentina/EUA/Itália/Reino Unido, 2019
Elenco: Anthony Hopkins, Jonathan Pryce, Juan Minujín, Luis Gnecco, Cristina Banegas
Distribuição: Netflix

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Fátima Gigliotti

Fátima Gigliotti

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Cinéfila incorrigível, jornalista, editora, professora (não muito), crítica (chatinha) de cinema e audiovisual. Trabalhou no jornal A Folha de São Paulo, na coleção Cinemateca Veja, nas revistas TVA, Ver Vídeo, Set, Querida e Preview.

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