terça, 19 de janeiro de 2021

O Irlandês


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Pouco depois de O Irlandês chegar aos cinemas norte-americanos, o cineasta Martin Scorsese assinou um polêmico artigo no jornal The New York Times, intitulado “Eu Disse que os Filmes da Marvel não são Cinema. Vou Explicar Melhor”. E dizia o subtítulo: “Cinema é arte que nos traz o inesperado. Em filmes de super-heróis, não há riscos”. Como os filmes da Marvel, O Irlandês é um filme-evento, mas por razões bastante distintas. A começar por sua gênese. Diretor de clássicos modernos, Scorsese amargou alguns anos de estúdio em estúdio até obter da Netflix o sinal verde para a produção, de cerca de US$ 160 milhões. Justamente por ser da Netflix, O Irlandês teve lançamento limitado nos cinemas mundiais (por aqui foram 19 salas), até estrear no serviço de streaming, em 27 de novembro.

Desde então, a crítica tem tratado O Irlandês como obra-prima de um cineasta artesão, com um elenco dos sonhos e uma produção impecável – fotografia de Rodrigo Prieto (Silêncio), edição de Thelma Schoonmaker (O Aviador), desenho de produção de Bob Shaw (série Boardwalk Empire), figurinos, direção de arte e trilha sonora de Robbie Robertson (A Cor do Dinheiro). É uma épica jornada cinematográfica de três horas e meia de duração.

Foi o roteirista Steven Zaillian (vencedor do Oscar por A Lista de Schindler) quem adaptou o livro de Charles Brandt, O Irlandês – Os crimes de Frank Sheeran a serviço da Máfia (disponível na Amazon). Por cinco anos, Brandt fez entrevistas com Frank ‘O Irlandês’ Sheeran, homem de confiança da máfia ítalo-americana como motorista, segurança e pintor de paredes, eufemismo para assassino por encomenda. Diz o livro que Sheeran foi peça-chave no “desaparecimento” de Jimmy Hoffa, o poderoso líder sindical que fez história nos anos 1950 e 1960 à frente dos caminhoneiros do país.

Logo de saída, Scorsese exercita sua genialidade ao colocar Frank Sheeran (Robert De Niro, Coringa) como o narrador do filme, de sua cadeira de rodas na solidão do asilo em que mora. São as memórias do protagonista, de seis décadas a serviço da máfia, de 1940 a 2000. Frank primeiro conhece o discreto e poderoso Russell Bufalino (Joe Pesci, Os Bons Companheiros), segundo na linha de poder da máfia sediada na Filadélfia, depois de Angelo Bruno (Harvey Keitel, Caminhos Perigosos). É Russell quem indica Frank para trabalhar com Hoffa (Al Pacino, em sua primeira colaboração com Scorsese), a quem o irlandês já admirava desde os tempos de motorista sindicalizado.

No progressivo envolvimento de Frank com os altos escalões, os negócios e as alianças de conveniência da máfia, vê-se como a história do crime organizado esteve intimamente entrelaçada aos bastidores do poder e da política do país, desde o próprio Jimmy Hoffa aos presidentes John F. Kennedy e Richard Nixon, e até mesmo Fidel Castro e o fiasco da Invasão da Baía dos Porcos, em Cuba. Em paralelo, Frank constitui família, tem quatro filhas, separa-se, casa-se novamente. É um núcleo aparentemente harmonioso, à exceção de Peggy (Anna Paquin, série True Blood), que desde criança observa com olhos críticos a rotina do pai, e representa o contraponto moral de toda a história de O Irlandês.

E se Scorsese já tinha sido brilhante até aqui, na condução narrativa e estética irretocável, na confecção minuciosa de enquadramentos, diálogos, e na direção do trio de atores-monstros e seus coadjuvantes, é no implacável epílogo que ele é, mais uma vez, genial. Frank conta no início que lutou na Segunda Guerra, na Itália, sob as ordens do lendário General Patton. Foi lá que aprendeu italiano, foi lá que aprendeu a executar ordens, sem questioná-las, e a ser reconhecido por isso. Foi assim que Frank começou e terminou sua longeva trajetória de serviços para a máfia italiana, “pintando paredes” com o vermelho do sangue de homens que executava, sem questionar, sendo reconhecido por isso. No microcosmo moral que Scorsese encena, não há redenção para essa servidão cega.

Muito tem-se falado da distinção entre o mundo dos poderosos da máfia, de Francis Ford Coppola e a trilogia O Poderoso Chefão, e o mundo dos operários da máfia, de Martin Scorsese. Mas não apenas O Irlandês, como toda a obra de Scorsese, faz um dos mais completos e ricos inventários da cultura norte-americana, das conturbadas raízes (Gangues de Nova York), da formação das elites (A Época da Inocência), das ruas (Caminhos Perigosos, Táxi Driver: Motorista de Táxi) e de pérfidos jogos de poder (Os Bons Companheiros, Cassino, Os Infiltrados, O Lobo de Wall Street). Agora, com essa produção monumental, o cineasta revisita sua filmografia sob o olhar perscrutador da responsabilidade do homem comum. Na sequência final, Frank deixa uma porta entreaberta, para que essa pergunta incômoda chegue até nós: “você faria diferente”? O alerta ético de Scorsese para a sociedade contemporânea é também um chamado à reflexão para a indústria do cinema.

Em seu artigo, ele afirma “A situação, infelizmente, é que atualmente nós temos dois mercados distintos: há o entretenimento audiovisual mundial, e há o cinema. Eles ainda coincidem vez por outra, o que cada vez é mais raro. E eu temo que o domínio financeiro de um acabe sendo usado para marginalizar e mesmo menosprezar a existência do outro”. Repare que o próprio Scorsese faz uso de efeitos especiais, sob os cuidados da Industrial, Light & Magic, de George Lucas, para rejuvenescer seus protagonistas. Também nesse quesito realiza um filme-evento. O Irlandês é ao mesmo tempo um relato memorialista de um personagem real e o legado imagético de um modo de conceber e fazer cinema, que resiste a se tornar memória de uma arte em extinção. “Você faria diferente?”

Confira ainda Conversando sobre O Irlandês, disponível também na Netflix. Scorsese, De Niro, Pacino e Pesci discutem o filme, os efeitos e a arte de fazer cinema em uma conversa descontraída e memorável. 




Trailer

Ficha Técnica

Título: O Irlandês/The Irishman
Direção: Martin Scorsese
Duração: 209 minutos

País de Produção/Ano: EUA, 2019
Elenco: Robert De Niro, Al Pacino, Joe Pesci, Harvey Keitel, Ray Romano, Bobby Cannavale, Anna Paquin, Stephen Graham, Jesse Plemons, Stephanie Kurtzuba, Jack Huston, Welker White
Distribuição: Netflix

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Fátima Gigliotti

Fátima Gigliotti

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Cinéfila incorrigível, jornalista, editora, professora (não muito), crítica (chatinha) de cinema e audiovisual. Trabalhou no jornal A Folha de São Paulo, na coleção Cinemateca Veja, nas revistas TVA, Ver Vídeo, Set, Querida e Preview.

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