domingo, 11 de abril de 2021

Dor e Glória


Dor e Glória
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Dor e Glória é a obra mais serena da carreira de Pedro Almodóvar. Prestes a completar 70 anos, o cineasta despe-se como nunca e entrega uma narrativa confessional, introspectiva e de reminiscências, mas não integralmente autobiográfica. É autoficção, como ele mesmo tem descrito em entrevistas. Há claros ecos de 8 ½, de Fellini, na história do veterano cineasta em crise existencial e criativa, que revisita o passado na tentativa de se reconciliar com o presente. Se Marcello Mastroianni foi o alter ego do diretor italiano no clássico de 1963, ninguém mais poderia representar Almodóvar senão Antonio Banderas, cuja atuação nesta oitava parceria foi premiada no Festival de Cannes 2019. Nome quase certo entre os indicados ao Oscar, Banderas já disputa como melhor ator em drama no Globo de Ouro 2020, e o filme é finalista entre as produções em língua estrangeira.  

Seu personagem, Salvador Mallo, abre a trama com um painel ilustrativo das dores físicas que lhe trouxeram a idade, a mais grave delas um problema na coluna. As dores psicológicas ele pretende estender sobre a tela, para que o público compreenda por que o sofrimento físico e mental o impede de filmar. Para o artista, não exercer sua arte é morrer. É nesse estado melancólico que conhecemos Salvador.

Só que ele terá de sair de sua toca em Madri, quando a cinemateca local anuncia um evento para celebrar a restauração de seu mais cultuado filme, Sabor, e conta não só com sua presença como a de seu protagonista, Alberto Crespo (Asier Etxeandia, excelente). Os dois não se falam há mais de 30 anos e é a partir do reencontro, em uma tarde embalada pela heroína, que Salvador “viaja” para o passado.

Nessas lembranças, Penélope Cruz (outra colaboradora fiel do diretor) brilha na pele da mãe atarefada, porém carinhosa, que faz de tudo para que seu espertíssimo filho único estude e cresça longe da pobreza que assola a família. Almodóvar ilumina a infância com nostalgia e presenteia o espectador com uma das mais lindas cenas que o cinema já produziu. A sequência em que o garoto sente desejo pela primeira vez arrebata pela plástica, e por uma mescla de sensualidade, inocência e lirismo que a eleva de imediato ao panteão da sétima arte.

No presente, o enredo ainda promove a reunião de Salvador com seu grande amor, Federico (olha a homenagem a Fellini! – papel de Leonardo Sbaraglia), um lampejo de ternura com efeito revitalizante. Almodóvar mantém a tradicional paleta de cores fortes em cenários e figurinos, embora desta vez menos gritantes. Também rejeita os excessos do melodrama com uma narrativa harmoniosa, apesar da temporalidade fragmentada, e escapa dos clichês de tramas sobre a finitude. Sim, Dor e Glória é sua reflexão sobre a passagem do tempo, sobre uma vida que caminha para o terço final. Em seu 21º longa-metragem, o mestre do cinema espanhol parece em paz consigo mesmo e - boa notícia - com a verve pulsante.  




Trailer

Ficha Técnica

Título: Dor e Glória/Dolor y Gloria
Direção: Pedro Almodóvar
Duração: 113 minutos

País de Produção/Ano: Espanha, 2019
Elenco: Penélope Cruz, Antonio Banderas, Asier Etxeandia, Leonardo Sbaraglia, Julieta Serrano, Cecilia Roth, Nora Navas
Distribuição: Universal Pictures

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Suzana Uchôa Itiberê

Suzana Uchôa Itiberê

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Cinéfila incorrigível, jornalista de plantão, crítica de cinema (não muito) chatinha e editora caprichosa. Cria do jornal O Estado de S. Paulo, trabalhou nas revistas TVA, Set, Istoé Gente e foi cofundadora da revista Preview. Membro da Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema).

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