quarta, 20 de outubro de 2021
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Dia do Trabalho: Estranhos tempos modernos


Dia do Trabalho: Estranhos tempos modernos

Neste segundo Dia do Trabalho da pandemia, o 1º de maio talvez ganhe sentidos distintos. De um lado, a inovação crescente nas ondas da internet. De outro, o desemprego crescente das incertezas e descasos da economia. Entre ambos, os estranhos tempos modernos que nos trouxeram até aqui, seja na Inglaterra, na França ou no Brasil.

O contundente Você Não Estava Aqui traz a crítica social do veterano diretor inglês Ken Loach sobre a manobra econômica da terceirização. O francês Em Guerra, trata de uma manifestação de defesa dos direitos dos empregados, liderada pelo grande ator Vincent Lindon, face às fusões e aquisições das grandes corporações globalizadas. E o documentário brasileiro Estou me Guardando para Quando o Carnaval Chegar, do cineasta pernambucano Marcelo Gomes, apresenta o cotidiano dos trabalhadores de Toritama, que respondem por 20% de toda a produção de jeans do País.


Drama
Você Não Estava Aqui/Sorry We Missed You

Você Não Estava Aqui/Sorry We Missed You

Por FÁTIMA GIGLIOTTI

Em 2016, o veterano diretor inglês Ken Loach ganhou a Palma de Ouro de melhor filme no Festival de Cannes, com o tristemente realista Eu, Daniel Blake, também eleito melhor filme britânico no BAFTA 2017. Fiel às suas origens socialistas, Loach ambienta sua mais recente produção novamente no conturbado universo do trabalho, em seu país e no mundo, e examina suas desastrosas consequências pessoais.

Em Eu, Daniel Blake, o protagonista vê-se imerso na impessoal burocracia para receber seus direitos após um acidente de trabalho. Você Não Estava Aqui volta-se para a franca exploração dos pequenos empreendedores pela farsa da terceirização. Escrito pelo parceiro de longa data de Loach, o roteirista Paul Laverty, o filme se passa nos conturbados tempos após a crise financeira mundial de 2008.

Você Não Estava Aqui/Sorry We Missed You

Ricky Turner (Kris Hitchen) é um dos muitos trabalhadores afetados pela crise. Sua esposa Abbie (Debbie Honeywood) tem sustentado a família prestando serviços de cuidadora para uma agência, mas não é o suficiente. Ricky decide vender o carro da esposa, que ela usa para ir  atender seus pacientes, para comprar uma van e trabalhar como autônomo para uma empresa de entregas. O que parecia uma oportunidade, torna-se escravidão – mais de 14 horas por dia de trabalho, descontos inesperados, nenhum benefício e muitos riscos. Com Ricky e Abbie ausentes e extenuados, aumentam os problemas com o filho adolescente Sebastian (Rhys Stone) e a pequena Liza (Katie Proctor). A família começa a ruir, apesar do amor evidente entre todos.

No seu já clássico estilo realista e contundente de ir até o fundo do poço dos temas polêmicos que costuma abordar, Loach coloca Ricky e sua família num labirinto em que as prováveis saídas são apenas armadilhas ainda mais astuciosas. Nós, do lado de cá da tela, os seguimos de perto, atraídos pela simpatia da família que poderia ser a nossa, compadecidos da situação que poderia ser a nossa ou de alguém próximo, atônitos antes mesmo do desfecho coerente, e por isso mesmo doloroso e revoltante.




Trailer

Ficha Técnica

Título: Você Não Estava Aqui/Sorry We Missed You
Direção: Ken Loach
Duração: 101 minutos

País de Produção/Ano: Reino Unido/França/Bélgica,, 2019
Elenco: Kris Hitchen, Debbie Honeywood, Rhys Stone, Katie Proctor, Ross Brewster
Distribuição: Vitrine Filmes


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Drama
Em Guerra/En Guerre

Em Guerra/En Guerre

Por FÁTIMA GIGLIOTTI

Nesta quarta colaboração entre o diretor e roteirista Stéphane Brizé e o ator Vincent Lindon, depois de Mademoiselle Chambon (2009), Uma Primavera com Minha Mãe (2012) e O Valor de um Homem (2015), que deu a Lindon a Palma de Ouro de melhor ator no Festival de Cannes, a sintonia e confiança entre os dois são essenciais para gestar o efeito contundente e reflexivo de Em Guerra. Se em O Valor de um Homem o protagonista lutava pessoal e individualmente contra o desemprego e seus efeitos, agora o líder sindical Laurent Amédéo (Lindon) representa, simboliza e dá voz a um coletivo de trabalhadores submetidos ao mesmo problema. São 1100 funcionários da usina francesa de Agen, unidade da Perrin Industries, poderoso grupo alemão do setor automobilístico.

Após dois anos de redução e desistência de vários benefícios em troca da continuidade da produção por cinco anos, os trabalhadores são avisados que a fábrica vai fechar, por inviabilidade econômica. Mas a verdade é que a unidade será transferida para a Romênia, onde os custos são muito mais baixos. Amédéo conduz os colegas a uma reação visceral contra a decisão com uma greve geral, também consegue a mediação de representantes do governo francês nas negociações, o apoio de operários de outra usina na região, e apela para a justiça, mas nada parece funcionar. Ao cabo de semanas de luta e cansaço, surgem dissidências entre os próprios trabalhadores, e Amédéo começa a perder o controle do movimento.

Em Guerra/En Guerre

Se a tensão entre as classes, trabalhadores e empresários parece óbvia, ela é amplificada pelas lentes da câmera e pelo esmero da produção, com destaque para a fotografia e trilha sonora, que dão ao filme um ritmo avassalador, uma tessitura realista quase jornalística. Repare que os enquadramentos abertos colocam os trabalhadores no centro da tela, e “os donos do poder” nas extremidades, à margem.

É uma composição cênica que, pelo espelhamento inverso na realidade, traduz o tom gritante de denúncia. O diretor, com seu elenco de extraordinários amadores, à exceção de Lindon, faz uma crítica severa e aguda ao discurso vazio dos grandes grupos econômicos para justificar suas arbitrariedades, à neutralidade danosa do poder público e sua defesa da famosa mão invisível do mercado a regular a economia. E mesmo que o espectador esteja preparado para o desfecho dessa crônica de uma derrota anunciada, falta o ar.




Trailer

Ficha Técnica

Título: Em Guerra/En Guerre
Direção: Stéphane Brizé
Duração: 113 minutos

País de Produção/Ano: França, 2018
Elenco: Vincent Lindon, Mélanie Rover, Jacques Borderie, Valérie Lamond, Jean Grosset, David Rey, Olivier Lemaire
Distribuição: Supo Mungam Films


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Documentário
Estou Me Guardando para Quando o Carnaval Chegar

Estou Me Guardando para Quando o Carnaval Chegar

Por SUZANA UCHÔA ITIBERÊ

Estou Me Guardando Para Quando o Carnaval Chegar é o primeiro documentário de Marcelo Gomes. Conhecido por longas de ficção como Joaquim e Cinema, Aspirinas e Urubus, Gomes enveredou pelo gênero meio por acaso, e seu filme não só foi destaque na Mostra Panorama do Festival de Berlim como levou o prêmio da crítica no Festival É Tudo Verdade 2019.

O diretor estava a caminho de um festival de cinema em Taquaritinga do Norte quando passou por Toritama, cidade pernambucana que ficava na rota que percorria ainda pequeno com o pai, um coletor de impostos. Sobrou pouco da pacata vila rural que tinha na memória. Com 40 mil habitantes, Toritama é hoje responsável por 20% da produção de jeans do País. O povo trabalha nas chamadas facções, que nada mais são que fábricas de fundo de quintal, onde as pessoas ganham pelo que produzem em tarefas segmentadas: bolso, zíper, barra, tingimento etc.

Estou Me Guardando para Quando o Carnaval Chegar

Gomes apresenta Toritama como um microcosmo do capitalismo implacável, mas os operários descrevem com orgulho a rotina maçante – dizem ser bem pagos e donos do próprio tempo. O debate fica aberto. Chama atenção a precariedade das facções: calças e mais calças transportadas em motocicletas, montanhas de jeans jogadas no chão sujo e poeirento, crianças e bichos entre máquinas de costura em um esquema mambembe de trabalho.

De personagens inusitados, o cineasta ouve que o dinheiro arrecadado tem um destino: pagar as despesas do Carnaval. Essa gente do agreste não abre mão de ir à praia no feriado. Para completar o orçamento da viagem, muitos vendem utensílios como televisão e geladeira, cientes de que terão de recomeçar do zero na Quarta-feira de Cinzas. Fascinado pelos moradores, Gomes não abre o escopo e deixa lacunas incômodas.

Estou Me Guardando para Quando o Carnaval Chegar

Para onde, afinal, vai o produto pronto? O cineasta filma apenas uma feira local. Onde estão os empresários que dependem da produção de Toritama? Que tratamento recebem esses jeans sujos de terra antes de chegar a uma vitrine de loja de grife? São questões simples que pedem um breve trabalho investigativo do cineasta que, em vez disso, parece achar mais interessante mostrar um dos operários do jeans ganhando um extra como pedreiro. Não é.




Trailer

Ficha Técnica

Título: Estou Me Guardando para Quando o Carnaval Chegar
Direção: Marcelo Gomes
Duração: 85 minutos

País de Produção/Ano: Brasil, 2019
Elenco: Leonardo, Francielly, Canario, Velho do Ouro
Distribuição: Vitrine Filmes


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Fátima Gigliotti

Fátima Gigliotti

Posts do Autor

Cinéfila incorrigível, jornalista, editora, professora (não muito), crítica (chatinha) de cinema e audiovisual. Trabalhou no jornal A Folha de São Paulo, na coleção Cinemateca Veja, nas revistas TVA, Ver Vídeo, Set, Querida e Preview.

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