terça, 30 de novembro de 2021
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Mostra SP 2021: Pegando a Estrada


Mostra SP 2021: Pegando a Estrada
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Mostra Play

Durante a primeira semana da Mostra SP 2021, o público votou em seus preferidos da Competição Novos Diretores, que premiará o vencedor com o Troféu Bandeira Paulista em cerimônia no dia 3. Pegando a Estrada é um dos 13 finalistas. Pode ser assistido on-line na Mostra Play (mostraplay.mostra.org), por R$ 12,00, até dia 4 de novembro, à meia-noite. A produção iraniana é uma preciosidade, um sopro de ar fresco e exemplo de como é possível tratar de temas espinhosos com alto-astral. Em cena temos uma família de quatro, ou melhor, cinco: pai, mãe, dois filhos e cachorro. O inquieto caçula (Rayan Sarlak), de seus 7 anos, tem energia e carisma infindáveis. O pai (Hassan Madjooni) está rabugento por conta da perna engessada e o cão está velhinho. Já a mãe (Pantea Panahiha) e o filho mais velho (Amin Simiar) se alternam na direção de um SUV alugado, que se desloca por estradas acidentadas. O clima é de animação, com direito a cantoria, mas o semblante do primogênito faz pairar uma tensão no ar.

Mostra SP 2021: Pegando a Estrada

Quem coloca o espectador de carona com esse clã é o diretor e roteirista estreante Panah Panahi, filho do premiado Jafar Panahi (Balão Branco). É preciso contextualizar a situação do Panahi pai, que em muito explica a razão de ser da história contada pelo filho. Perseguido por seus filmes engajados e declarações políticas, em 2010 Jafar foi condenado por conspirar contra o governo iraniano. A pena: seis anos de prisão (saiu antes após greve de fome e fiança), vinte anos sem filmar e proibição de deixar o país. Mesmo vigiado, ele segue na ativa. Às vezes filma em casa, outras sai às ruas, como em Táxi Teerã e 3 Faces. O motivo por trás da viagem de Pegando a Estrada só se revela perto do fim, mas é claramente influenciado pelo drama real da família Panahi.

Mostra SP 2021: Pegando a Estrada

Exibido na Quinzena dos Realizadores em Cannes, esse é um road movie com diversas e inusitadas paradas. Em uma das primeiras, a mãe descobre que o filho pequeno levara o celular escondido na cueca, e deixa o aparelho pelo caminho com a promessa de voltar para pegá-lo. Em outra, eles ganham um passageiro temporário – o ciclista que atropelam acidentalmente. Há também a estranha parada em que se comunicam com dois motoqueiros suspeitos. Mesmo quando a verdade começa a se revelar, não há gravidade no olhar de Panah Panahi. O tom dominante é o da comédia. A dinâmica entre o pai e a criança é embebida em um humor afetuosamente irônico, e os diálogos trazem até referências à cultura pop. Ao restrito espaço do carro o diretor contrapõe majestosas panorâmicas de uma paisagem ora arenosa, ora montanhosa.  

Mostra SP 2021: Pegando a Estrada

À vezes, porém, o enredo quebra a descontração e surpreende com sequências intimistas, silenciosas e líricas. A mãe se agiganta nesses momentos, como essa mulher que inibe o redemoinho interno que às vezes aflora no escorrer de uma lágrima. Ela não pode se deixar abater porque sabe que é a âncora da família. Na reta final, a câmera de Panah Panahi, quase sempre rente aos personagens, se distancia a ponto de vermos apenas a movimentação intensa entre eles. Aquele quarteto tão marcante torna-se diminuto diante da natureza e da presença de outras pessoas na mesma circunstância. É um momento sublime de uma pequena obra-prima que corrobora a expressão “filho de peixe, peixinho é”. Que imenso talento têm os cineastas da família Panahi.




Trailer

Ficha Técnica

Título: Pegando a Estrada/Jaddeh Khaki
Direção: Panah Panahi
Duração: 93 minutos

País de Produção/Ano: Irã, 2021
Elenco: Hassan Madjooni, Pantea Panahiha, Rayan Sarlak, Amin Simiar
Distribuição: Celluloid Dreams

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Suzana Uchôa Itiberê

Suzana Uchôa Itiberê

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Cinéfila incorrigível, jornalista de plantão, crítica de cinema (não muito) chatinha e editora caprichosa. Cria do jornal O Estado de S. Paulo, trabalhou nas revistas TVA, Set, Istoé Gente e foi cofundadora da revista Preview. Membro da Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema).

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