quarta, 17 de julho de 2024
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Grande Sertão


Grande Sertão
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Quando oiei' a terra ardendo. Qual fogueira de São João. Eu preguntei' a Deus do céu, uai. Por que tamanha judiação? Assim cantou Luiz Gonzaga em “Asa Branca”, um hino do sertão desde sua composição, em 1947. A mesma terra ardeu no clássico romance de Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas, lançado em 1956. A terra que ferve em Grande Sertão, adaptação de Guel Arraes, já não é a do solo arenoso. É o concreto que queima na distópica realidade da versão que se moderniza para, no fim, escancarar que os males de ontem só ganharam nova roupagem.

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Os jagunços tomam forma de traficantes e milicianos na visão contemporânea de Arraes e seu parceiro de roteiro, Jorge Furtado. O humor ingênuo que a dupla imprimiu em Lisbela e o Prisioneiro (2003) dá lugar a uma dramaticidade shakespeariana. Vai-se o ensolarado sertão e instala-se uma periferia futurista, com uma comunidade murada no estilo Maze Runner e um visual de favelas suspensas aos moldes de Jogador Nº 1 (2018). A erudição do livro ecoa em diálogos e monólogos pomposos, cujo formato teatral se explica até pelo protagonismo de Caio Blat, que encarnou Riobaldo na peça de Bia Lessa em 2017, e venceu o prêmio Shell pela atuação.

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Aqui ele é o narrador envelhecido que rememora a vida desde o instante em que bota os olhos em Diadorim. A enigmática personagem solta labaredas pelos olhos e tem faca nos dentes na interpretação de Luisa Arraes, mulher de Blat na vida real e filha de Arraes, que a dirige pela primeira vez. A transição de Riobaldo de professor idealista a soldado da facção liderada por Joca Ramiro (Rodrigo Lombardi) é acelerada e segue em ritmo histérico até o desfecho.

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Apesar de todo o rebuscamento estético e do elenco entrosado, a visão de Arraes para Grande Sertão tem  limitações. Riobaldo é guiado e perturbado pelo “inaceitável” amor por Diadorim, braço direito de Joca Ramiro e cuja verdadeira identidade é o grande segredo do romance. Aqui a revelação é imediata. Nem o figurino tenta esconder a feminilidade de Diadorim. A guerra urbana que rende altas doses de violência é um confronto entre a bandidagem, porque a polícia, encabeçada por Zé Bebelo (Luís Miranda), também tem seu preço.

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A sede de vingança é motor de uma narrativa embebida no sobrenatural, encarnado pelo endiabrado Hermógenes (Eduardo Sterblitch). Mas a verdade é que o frenesi mais se desenha do que se consolida. A maior dificuldade deste Grande Sertão é gerar empatia, levantar torcida, emocionar. Ainda assim, é uma produção meritosa, que atualiza e populariza uma das mais significativas obras da literatura brasileira. Se aguçar a curiosidade da nova geração e atrair novos leitores, já está bom demais.




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Ficha Técnica

Título: Grande Sertão
Direção: Guell Arraes
Duração: 108 minutos

País de Produção/Ano: Brasil, 2024
Elenco: Caio Blat, Luisa Arraes, Luís Machado, Rodrigo Lombardi, Eduardo Sterblitch, Mariana Nunes
Distribuição: Paris Filmes

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Suzana Uchôa Itiberê

Suzana Uchôa Itiberê

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Cinéfila incorrigível, jornalista de plantão, crítica de cinema (não muito) chatinha e editora caprichosa. Cria do jornal O Estado de S. Paulo, trabalhou nas revistas TVA, Set, Istoé Gente e foi cofundadora da revista Preview. Membro da Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema).

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