terça, 30 de novembro de 2021
Cinema Drama

Charuto de Mel


Charuto de Mel
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Charuto de Mel chega aos cinemas direto da Mostra SP 2021, e com dois sobrenomes atraentes nos créditos. A diretora Kamir Aïnouz é meia-irmã do consagrado cineasta cearense Karim Aïnouz (A Vida Invisível), por parte do pai argelino. E a protagonista, Zoé Adjani, tem muito da beleza e carisma da tia, a diva francesa Isabelle Adjani (Camille Claudel), também filha de argelino. É uma obra de iniciantes e a inexperiência nesse caso conspira a favor da história de uma jovem em processo de autodescoberta. Aos 17 anos, Selma mora no luxuoso distrito de Neuilly-sur-Seine, nos arredores de Paris, e acaba de entrar na universidade. Na entrevista de admissão, é questionada sobre sua nacionalidade. Nascida na França de pais argelinos, Selma responde: “Sou duplicada”. Esse espírito paradoxal pavimenta tanto a construção narrativa quanto as ações e emoções da personagem.

Charuto de Mel

O ano é 1993. A Argélia está em plena Guerra Civil, com o governo em confronto com grupos radicais islâmicos. O pai advogado e a mãe ginecologista acompanham pelo noticiário, temerosos que a violência alcance Cabília, região montanhosa onde vivem seus familiares. Selma enxerga a realidade com os olhos de quem está mais interessada no próprio umbigo, um egoísmo natural da idade. Ela vive intensamente. Fuma, bebe e age como se fosse dona de si, quando na verdade ainda não se encontrou. O aflorar da sexualidade dita suas leituras, filmes, músicas, palavras e atos. A sensualidade é magnética e esquenta a tela mesmo nas pudicas cenas de sexo. A diretora Kamir disse que concebeu o filme a partir de uma imagem que lhe veio à mente, de uma jovem jogada sobre a cama sem saber o que fazer com o próprio corpo.

Charuto de Mel

A desagradável iniciação com Julien (Louis Peres), colega um pouco mais velho, e a traumática experiência com um conhecido da família a introduzem nos dissabores do patriarcado machista. Selma se vê dividida entre duas culturas. Os pais muçulmanos se dizem modernos e liberais, estimulam a filha a estudar e são contra o casamento arranjado. Estranhamente, contudo, o pai controla efusivamente o horário dela voltar para casa e a mãe parece obcecada em apresentar-lhe pretendentes a marido. Selma se rebela contra as tradições com a mesma força com que é fascinada pelos costumes argelinos. Kamir explora como as contradições influenciam a relação da protagonista com a família, com seu corpo, e vai além. 

Charuto de Mel

O enredo traça um paralelo entre o – por vezes violento – rito de passagem da adolescente e as transformações na Argélia com o avanço do fundamentalismo, apenas 30 anos depois da independência do domínio francês. São dois “corpos” jovens em busca de identidade e liberdade. Há ampla movimentação corporal e emocional em Charuto de Mel, embora falte sutileza à cineasta no trânsito por esses conflitos. Durante a viagem à Cabília, por exemplo, a cena em que Selma se delicia com o fálico charuto de mel na boca enquanto as parentes argelinas se dedicam ao preparo do doce é das mais óbvias. Detalhes que não comprometem. É um belo início de carreira para diretora e atriz. 




Trailer

Ficha Técnica

Título: Charuto de Mel/Cigare au Miel
Direção: Kamir Aïnouz
Duração: 100 minutos

País de Produção/Ano: França/Bélgica/Argélia, 2020
Elenco: Zoé Adjani, Amira Casar, Lyes Salem, Louis Peres, Idir Chender, Axel Grandberger
Distribuição: Imovision

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Suzana Uchôa Itiberê

Suzana Uchôa Itiberê

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Cinéfila incorrigível, jornalista de plantão, crítica de cinema (não muito) chatinha e editora caprichosa. Cria do jornal O Estado de S. Paulo, trabalhou nas revistas TVA, Set, Istoé Gente e foi cofundadora da revista Preview. Membro da Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema).

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