quinta, 13 de junho de 2024
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Angela


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Em 1º de agosto deste ano, o Supremo Tribunal Federal (STF) declarou inconstitucional, por unanimidade de votos, o uso da tese da legítima defesa da honra em crimes de feminicídio ou de agressão contra mulheres. “A sociedade ainda hoje é machista, sexista, misógina e mata mulheres apenas porque elas querem ser donas de suas vidas", diz o cirúrgico relato da ministra Cármen Lúcia no site oficial do tribunal. Em 1979, o advogado Evandro Lins e Silva saiu vitorioso ao usar a tese na defesa do empresário Raul “Doca” Street (1934-2020), que em 1976 matou Ângela Diniz, de 32 anos, com três tiros no rosto e um na nuca.

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O midiático julgamento não está em Angela, que reconstrói a etapa final da vida da socialite de Belo Horizonte, chamada de Pantera de Minas. O recorte feito pelo diretor Hugo Prata (Elis), a partir do roteiro de Duda de Almeida, foca a relação apaixonada e tempestuosa do casal. Interpretados por Isis Valverde e Gabriel Braga Nunes, e nas palavras do próprio cineasta, os amantes protagonizam cenas de “sexo rock and roll”. Os malabarismos sexuais tomam boa parte da trama, assim como as sequências de violência.

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“Percebemos que predominou a versão do advogado do assassino, que para livrar a cara dele a desqualificou”, explica o diretor em conversa com OQVER (vídeo ao final). “Pegou a trajetória dela e ficou apontando o dedo pra dizer que mereceu.” Ângela irrompe em cena em traje de gala durante uma festa de arromba, mas se vê cancelada pela alta sociedade. “Era uma mulher fragilizada porque tinha acabado de ter de ceder a guarda dos filhos para conseguir o desquite”, acrescenta Prata. “Ela só queria ser mais uma na noite, e esse foi o viés que abraçamos.”

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O cineasta ouviu o podcast de Branca Vianna, Praia dos Ossos, da Rádio Novelo, que reconta a história em oito episódios. A Amazon já comprou os direitos para adaptar em minissérie. O título é referência à praia em Búzios onde ocorreu o crime. A decisão de focar no casal, cuja relação durou apenas quatro meses, compromete a intenção de esvaziar o discurso da defesa, que pintou Ângela como uma “mulher fatal”, capaz de levar qualquer homem à loucura. Em que pese a entrega dramática de Isis Valverde, cujo olhar externa o sofrimento, sobra uma beldade mimada, egoísta, voluptuosa, indomável e até cruel.

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Mesmo imperfeito, Angela tem o mérito de reforçar a luta contra o feminicídio. Vale lembrar que Doca cumpriu em liberdade a sentença de dois anos do primeiro julgamento. O movimento feminista saiu às ruas com o slogan “Quem ama não mata” e, em 1981, um novo julgamento condenou-o a quinze anos, embora tenha cumprido somente quatro em regime fechado. São 47 anos da morte de Ângela Diniz. Segundo relatório do Monitor de Feminicídios no Brasil, elaborado pelo Laboratório de Estudos de Feminicídio (Lesfem), entre 1º de janeiro e 30 de junho de 2023, 862 feminicídios foram registrados pela imprensa nacional – 599 consumados e 263 tentados. A média foi de 3,32 assassinatos de mulheres por dia. 




Trailer

Ficha Técnica

Título: Angela
Direção: Hugo Prata
Duração: 104 minutos

País de Produção/Ano: Brasil, 2023
Elenco: Isis Valverde, Gabriel Braga Nunes, Alice Carvalho, Emilio Orciollo Netto, Bianca Bin, Carolina Manica, Gustavo Machado, Chris Couto
Distribuição: Downtown Filmes

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Suzana Uchôa Itiberê

Suzana Uchôa Itiberê

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Cinéfila incorrigível, jornalista de plantão, crítica de cinema (não muito) chatinha e editora caprichosa. Cria do jornal O Estado de S. Paulo, trabalhou nas revistas TVA, Set, Istoé Gente e foi cofundadora da revista Preview. Membro da Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema).

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