domingo, 11 de abril de 2021

Pelé


Pelé
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Netflix

“Pelé soldou a glória dele com a do Brasil. É como você estar numa guerra e ter a bandeira do Brasil na mão. O mito dele é o nosso mito”, afirma, no documentário Pelé, o ex-presidente, sociólogo e cientista político Fernando Henrique Cardoso. Durante seu mandato, Pelé foi ministro dos esportes, de 1995 a 1998, e teve atuação decisiva para a promulgação da chamada Lei Pelé, que estabeleceu as bases legais das práticas desportivas no País, inclusive o futebol. Esse fato, e muitos outros relativos à vida de Pelé dentro e fora do campo não estão na produção britânica realizada em parceria com a brasileira Saraguina Filmes.

O recorte temporal dos diretores Ben Nicholas e David Tryhorn concentra-se no período de 1958 a 1970, embora conte as origens do jogador, e adota o fio condutor das quatro disputas de Copa do Mundo das quais Pelé participou. O documentário narra a trajetória que transformou o jogador mineiro do Santos Futebol Clube no Rei do Futebol, o único, até hoje, a ser tricampeão mundial em campo. Destaca os fatos que levaram à construção do “mito” e dá voz a Edson Arantes do Nascimento, hoje com 80 anos. Também analisa sua relação com o Brasil em crescimento que o viu nascer, e com o país sob ditadura que assistiu a vitória dele e da seleção brasileira na Copa do Mundo do México de 1970, cujas imagens, aliás, abrem e fecham o filme.

Coproduzido pelo escocês Kevin Macdonald, vencedor do Oscar de documentário por Munique, 1972: Um Dia em Setembro (1999), diretor da ficção O Último Rei da Escócia (2006) e de Whitney (2018), Pelé traz sua marca de enraizamento social da narração, outro diferencial face a dois dos pares documentais do filme, Isto é Pelé (1984), de Luiz Carlos Barreto e Eduardo Escorel, e Pelé Eterno (2004), de Aníbal Massaini. A pesquisa das imagens de arquivo é irretocável, e ganha representatividade com os depoimentos de jogadores e treinadores do Santos e das seleções, como Amarildo, Rivellino, Jairzinho, Paulo César Caju, Pepe, Brito, Zagallo, Coutinho, além de jornalistas tarimbados como Juca Kfouri e José Trajano, entre outras celebridades.  

Mas é das palavras do próprio Pelé na maturidade que o documentário se alimenta de maneira ainda mais original. Ele entra de andador num salão onde está uma cadeira vazia à sua espera, senta e empurra o aparelho para fora do enquadramento. Quando encontra os colegas do Santos, brinca com a cadeira de rodas, mas o contraste com o esguio soco no ar na comemoração do gol repetido tantas vezes no documentário enobrece o homem, antes do mito, o inigualável artista da bola que atingiu, como poucos, a perfeição do seu talento. Mitos não envelhecem.

O diretor Ben Nicholas disse em entrevista que “o Brasil antes de Pelé e o Brasil depois de Pelé são dois países totalmente diferentes em termos de identidade cultural e nacional”, e defende essa tese com transparência inédita, apoiado nas memórias do próprio Pelé, dos entrevistados e de imagens contundentes. Se a persona pública e a vida privada se misturam, e Pelé fala de seu casamento e de suas infidelidades, só um Estado de exceção se aproveitaria da imagem pública do Camisa 10, de popularidade estratosférica, nacional e internacional. Nesta história de Pelé, o golpe, os militares e o presidente do AI-5, Emílio Garrastazu Médici, desempenham um papel muito maior do que qualquer brasileiro, Pelé inclusive, gostaria.

A esse respeito, surgem flashes de Muhammad Ali como exemplo de um atleta comprometido politicamente, se comparado com as declarações de Pelé, um jogador de futebol que entende de bola, não de política. Além da edição exageradamente acelerada, que compromete a fruição dos grandes momentos no campo, é questionável a abordagem que olha para o passado e para Pelé com a perspectiva contemporânea do politicamente correto ou engajado. O documentário Pelé pode ser socialmente comprometido, como é, mas Pelé não precisava e nem quer ser.

Ele foi, antes de mito, um herói nacional. Alguém, como diz a deputada Benedita de Jesus, que representava “a imagem mais promissora que tínhamos de um menino negro pobre”. Nos anos 1950! Se não nos deixamos comover pelas lágrimas de Pelé em alguns momentos do documentário, é difícil resistir à imagem dele, sentado, batucando numa caixinha de engraxate como a que usava, criança, para ajudar a família quando o pai ficou doente. Mas é mesmo impossível não se emocionar com o esplendor do jogador em campo, a encantar as plateias de todo mundo, e sobretudo os brasileiros, nos Anos de Chumbo do Brasil.




Trailer

Ficha Técnica

Título: Pelé
Direção: Ben Nicholas, David Tryhorn
Duração: 108 minutos

País de Produção/Ano: Reino Unido, 2021
Elenco: Pelé
Distribuição: Netflix

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Fátima Gigliotti

Fátima Gigliotti

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Cinéfila incorrigível, jornalista, editora, professora (não muito), crítica (chatinha) de cinema e audiovisual. Trabalhou no jornal A Folha de São Paulo, na coleção Cinemateca Veja, nas revistas TVA, Ver Vídeo, Set, Querida e Preview.

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