sábado, 27 de fevereiro de 2021

O Tigre Branco


O Tigre Branco
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Netflix

Conceitos como “sonho americano”, “self-made man” e “meritocracia” não existem no sistema de castas na Índia. Embora abolido oficialmente em 1950, está longe de ser erradicado. O que significa que a grande maioria da população de mais de 1,3 bilhão de pessoas vive em uma sociedade com estratificação hereditária. É uma segregação engessada pela cultura e a religião hindu, que impede a ascensão social. Em poucas palavras: nasceu pobre, morreu pobre.

Balram (a revelação Adarsh Gourav), o anti-herói de O Tigre Branco, sabe que subir na vida na Índia só mesmo na fantasia cinematográfica Quem Quer Ser Um Milionário?. Pelo menos nos moldes do rapaz que vence a competição de perguntas e respostas no oscarizado filme de Danny Boyle. Pois Balram quebra a quarta parede para contar como venceu o sistema e se tornou o tigre branco do título, um animal raríssimo. O diretor Ramin Bahrani criticou a disparidade social no potente 99 Casas, e é ainda mais enfático na adaptação do romance de Aravind Adiga, vencedor do Booker Prize em 2008. O problema é seu aval a um personagem procurado por assassinato.

É de um escritório luxuoso que Balram narra com orgulho sua epopeia, na forma de um e-mail que pretende enviar ao então primeiro-ministro Chinês Wen Jiabao, que visitará a Índia naquele ano de 2010 para se encontrar com empreendedores. Sua história começa na miséria, em um vilarejo rural onde a família é comandada pela avó, uma matriarca dissimulada que o obriga a abandonar os estudos para trabalhar na loja de chá, martelando pedras de carvão. Para escapar do casamento arranjado e daquele destino cruel, Balram promete torná-la rica se ela lhe pagar aulas da autoescola.

Cheio de lábia, ele consegue emprego de motorista na casa do ricaço que explora a comunidade. Balram servirá o filho caçula dele, Ashok (Rajkummar Rao), que acaba de voltar de uma temporada de estudos em Nova York, onde burlou o sistema de castas para casar com Pinky (Priyanka Chopra Jonas). Eles posam de casal moderno. É nítido que a nova geração tem mais consciência do abismo social, mas pouco faz para mudar a situação. Relativamente bem tratado pelos patrões, Balram é complacente inclusive com o jogo corrupto da família toda para manter o status quo. O ponto de virada é um trágico incidente.

Balram é um narrador ágil, vibrante e dono de um humor sarcástico. Carismático, sem dúvida. Mas o diretor Bahrani pede mais do que empatia diante da transformação do protagonista. O público precisa ser condescendente com a amoralidade. Foram muitas as comparações de O Tigre Branco com o consagrado Parasita, de Bong Joon-ho. Mas o filme do sul-coreano se desgruda da realidade em tom de fábula, o que torna seus excessos mais palatáveis. Aqui o piso é realista e fica duro endossar as ações que fazem Balram atingir o inatingível. O fim justifica os meios? Eis a questão.  




Trailer

Ficha Técnica

Título: O Tigre Branco/The White Tiger
Direção: Ramin Bahrani
Duração: 125 minutos

País de Produção/Ano: EUA/Índia, 2021
Elenco: Adarsh Gourav, Rajkummar Rao, Priyanka Chopra Jonas, Kamlesh Gill, Satish Kumar
Distribuição: Netflix

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Suzana Uchôa Itiberê

Suzana Uchôa Itiberê

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Cinéfila incorrigível, jornalista de plantão, crítica de cinema (não muito) chatinha e editora caprichosa. Cria do jornal O Estado de S. Paulo, trabalhou nas revistas TVA, Set, Istoé Gente e foi cofundadora da revista Preview. Membro da Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema).

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