segunda, 12 de abril de 2021

A Voz Suprema do Blues


A Voz Suprema do Blues
Assista Agora!
Netflix

Antes de mais nada, é preciso lembrar e lamentar que este é o último trabalho de Chadwick Boseman (1976-2020), rodado depois de Destacamento Blood, de Spike Lee. Dito isso, o Pantera Negra não poderia deixar um melhor legado de seu talento e de sua curta carreira, interrompida em 28 de agosto passado, com a triste e precoce morte do ator aos 43 anos, de câncer. Como o inquieto, audacioso e talentoso trompetista Levee, membro mais jovem do quarteto da diva Ma Rainey (1886-1939), conhecida como a Mãe do Blues, Boseman inscreveu mais uma vez o seu nome numa obra essencial e definitiva para o resgate da história afro-americana nos filmes.

A Voz Suprema do Blues é a adaptação da peça homônima do escritor e dramaturgo August Wilson (1945-2005), vencedor do Prêmio Pulitzer. É dele também é o texto original de Um Limite Entre Nós, dirigido, produzido e estrelado por Denzel Washington (O Protetor 2), e pelo qual Viola Davis (As Viúvas) levou o Oscar de coadjuvante. Desta vez, Washington assina apenas a produção, segunda etapa de seu dileto projeto de adaptar as dez peças do Ciclo de Pittsburgh, escritas por August Wilson, uma para cada década, de 1900 a 1990, sobre personagens e a história afro-americana do século 20.

Como produtor, o astro cercou-se de inegáveis talentos, do premiado diretor George C. Wolfe (Um Momento Pode Mudar Tudo) ao grande compositor Branford Marsalis, além da experiência nos figurinos de Ann Roth (vencedora do Oscar por O Paciente Inglês) e do cuidadoso design de produção de Mark Ricker (O Escândalo). Detalhes importantes da produção estão no especial A Voz Suprema do Blues – Bastidores, também disponível na Netflix.

Ma Rainey (Viola Davis) reina nos anos 1920. Diva do blues, bissexual assumida, amada pela comunidade negra do sul do país, em 1927 ela está em Chicago com sua banda, para gravar um disco com alguns de seus sucessos. Mas conflitos com seu empresário (Jeremy Shamos, Má Educação), o dono da gravadora (Jonny Coyne), e com o rebelde Levee elevam a tensão no estúdio, já sufocante pelo calor e pelas discussões entre os membros da banda. As comparações com Bessie Smith, aprendiz de Ma Rainey, já então conhecida como a Imperatriz do Blues, não ajudavam muito.

A direção manteve-se fiel à estrutura original do texto teatral, abrindo a câmera em alguns poucos momentos, para situar a já urbana Chicago da época e para apresentar o fascínio que Ma Rainey despertava no seu público em um show. Mas o filme de George C. Wolfe é feito das palavras lindas, melancólicas e devastadoras de Wilson, das harmoniosas notas do blues e da força das performances grandiosas de seu elenco, sem exceção. Nos diálogos e nas entrelinhas, o racismo violento e segregador irrompe naturalmente, como naturalmente fazia parte da vida na América.

Cada personagem tem seu momento, porta-voz das doloridas memórias do preconceito e da injustiça, que a música e a arte têm o dom de denunciar e amenizar. Mas A Voz Suprema do Blues é palco, sobretudo, para o talento de Viola Davis e Chadwick Boseman, cujas atuações já estão, merecidamente, cotadas para indicações ao Oscar. Na pele da Mãe do Blues, numa irretocável composição, Viola combina a nobreza e o pesar de quem conhece o seu valor e o descaso com o qual o mundo artístico dos brancos lhe trata.

Seu contraponto é Levee, dono de igual talento, que mesmo marcado por uma história trágica, ainda é imaturo e ingênuo quanto à exploração de seu valor, que a sequência final escancara, evocando o dolorido lamento de Levee minutos antes, dirigido a Deus: “Você nos deu as costas? Venha e vire as costas para mim. Onde está você?”. A cena nervosa e visceral, já antológica, e a construção minuciosa de corpo e voz de Chadwick Boseman, com seus sapatos amarelos, é testemunho da nota maior que o trabalho de um ator pode alcançar.




Trailer

Ficha Técnica

Título: A Voz Suprema do Blues/Ma Raineys Black Bottom
Direção: George C. Wolfe
Duração: 94 minutos

País de Produção/Ano: EUA, 2020
Elenco: Viola Davis, Chadwick Boseman, Colman Domingo, Glynn Turman, Michael Potts, Jeremy Shamos
Distribuição: Netflix

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Fátima Gigliotti

Fátima Gigliotti

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Cinéfila incorrigível, jornalista, editora, professora (não muito), crítica (chatinha) de cinema e audiovisual. Trabalhou no jornal A Folha de São Paulo, na coleção Cinemateca Veja, nas revistas TVA, Ver Vídeo, Set, Querida e Preview.

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