quinta, 26 de novembro de 2020

Varilux 2020: Sou Francês e Preto


Varilux 2020: Sou Francês e Preto
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Numa passagem da comédia Sou Francês e Preto, o protagonista Jean-Pascal Zadi comenta que o lema da Revolução Francesa - Igualdade, Liberdade, Fraternidade – só é levado a sério em seu país pelos alunos do ensino fundamental, como seu filho. Ator desempregado de 38 anos, popular na mídia com vídeos criativos sobre racismo, Zadi decide organizar uma Marcha de Protesto de Homens Negros, na Praça da República, em Paris, contra a situação catastrófica da população negra na França. Para agitá-la, vai em busca de apoio de artistas e ativistas conhecidos, com uma abordagem desajeitada e uma câmera onipresente atrás de si.

O rapper Jean-Pascal Zadi, além de ator, é também roteirista e diretor deste falso documentário escrachado e ácido que articula com inteligência o gênero mockumentary (paródia de eventos ou personalidades), para tratar do delicado e espinhoso tema da identidade do negro na França. Zadi foi tão bem-sucedido em sua proposta que lotou os cinemas franceses em julho de 2020, com mais de 800 mil ingressos vendidos em plena reabertura dos circuitos após a quarentena da Covid-19.

A presença maciça de artistas e celebridades francesas no elenco, que interpretam a si mesmos em farsescas participações, certamente contribuiu para o resultado. O encontro de Zadi com os atores e diretores Fabrice Eboué (Coexistir Não é Fácil) e Lucien Jean-Baptiste (Ele Tem Mesmo os Seus Olhos) descamba para uma discussão acalorada sobre questões racistas na obra (real) da dupla. Mathieu Kassovitz até cita o seu premiado O Ódio no brutal teste de elenco com Zadi, que se vê ainda em outras enrascadas com as atrizes Claudia Tagbo (Luta de Classes), Fadily Camara (O Bom Médico) e Stéfi Celma (Bala Perdida). Esta última quer saber por que as mulheres não podem participar da Marcha.

Aliás, Zadi também é chamado para uma reunião com um casal árabe e outro judeu, decididos a colaborar com a Marcha, e enfrenta uma sabatina sobre como ele define um negro no balcão de um bar lotado. O badalado ator cômico Fary acaba se tornando parceiro na organização da Marcha, e o rapper Soprano compõe até um rap para o evento. Omar Sy (Uma Família de Dois), citado como paradigma do ator negro bem-sucedido várias vezes no filme, também aparece para dar seu apoio. Mas quem não está muito contente com a agitação toda é a esposa de Zadi, Camille (Caroline Anglade, Um Amante Francês), não por acaso loira de olhos azuis.

Sou Francês e Preto se constrói como uma sequência de esquetes cômicas cáusticas, que não apenas funciona para dar ritmo ao filme como para abarcar grande parte dos estereótipos racistas da negritude, inclusive no cinema e na arte. Zadi os trata com humor agridoce, ainda que por vezes hilário, acentuado pelas informações históricas da África e do passado escravagista francês que insere no roteiro. A costura narrativa, mais uma vez admirável, concentra-se no olhar perplexo e silencioso de Zadi para a câmera que registra sua jornada e espelha o do espectador, incomodado, mas jamais surpreso. Até nos créditos finais, quando Zadi aparece como Forrest Gump em cenas históricas marcantes da história francesa, ele tem algo importante a dizer, sem perder a graça.




Trailer

Ficha Técnica

Título: Sou Francês e Preto/Tout simplement noir
Direção: John Wax, Jean-Pascal Zadi
Duração: 90 minutos

País de Produção/Ano: França, 2020
Elenco: Jean-Pascal Zadi, Caroline Anglade, Fary, Claudia Tagbo, Fadily Camara, Stéfi Celma
Distribuição: Bonfilm

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Fátima Gigliotti

Fátima Gigliotti

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Cinéfila incorrigível, jornalista, editora, professora (não muito), crítica (chatinha) de cinema e audiovisual. Trabalhou no jornal A Folha de São Paulo, na coleção Cinemateca Veja, nas revistas TVA, Ver Vídeo, Set, Querida e Preview.

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