quinta, 26 de novembro de 2020

Mostra SP: Nadando Até o Mar se Tornar Azul


Mostra SP: Nadando Até o Mar se Tornar Azul
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O premiado cineasta chinês Jia Zhangke (Amor até as Cinzas, Em Busca da Vida) foi duplamente celebrado na 44ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que termina nesta quarta, dia 4. O belíssimo cartaz da Mostra, que também deu origem à vinheta do evento, foi assinado por Zhangke. Traz a imagem de um acendedor de incensos de Fenyang, executando sua nobre função frente à estátua do deus da literatura.

Província de Shanxi, na China, Fenyang costuma ser visitada por artistas e escritores chineses, especialmente na época da feira literária que é um dos marcos da cidade natal do diretor, também chamada de Aldeia dos Jia (em chinês, o primeiro nome é o de família). Nadando Até o Mar se Tornar Azul documenta a edição do evento em 2019, mas constrói-se principalmente  com os testemunhos e relatos de moradores anciãos de Fenyang, de três grandes escritores chineses, Jia Pingwa, Yu Hua (Crônica de um Vendedor de Sangue) e Liang Hong, nascidos respectivamente nas décadas de 1950, 1960 e 1970, e da filha do escritor ativista Ma Feng.

Assim, o cineasta chinês, que ocupou o foco do documentário do diretor Walter Salles, Jia Zhangke, um Homem de Fenyang (2014), desenha um traçado informal, único, precioso, e muitas vezes comovente, da história da literatura contemporânea chinesa e do que ela revela da história recente de seu país. E o faz fiel a um dos principais veios temáticos de sua obra, a memória. A narrativa do documentário é contemplativa, mas ganha ritmo com seus 18 capítulos curtos, e as memórias pessoais e profissionais dos entrevistados, acompanhadas de imagens com o vigor estético também marcante de Zhangke, e um lirismo raro no gênero.

Logo nas primeiras sequências, o diretor contrapõe imagens do passado e do presente de Fenyang, que também são de seu país. Há um discurso submerso em seu filme, que nos convida a voltar o olhar para a vida rural, ainda tão preponderante mesmo na China mais cosmopolita e competitiva, e reconhecer ali uma tradição autêntica com a qual o presente parece não se importar. O emissário principal desse discurso, além das imagens dos jovens fixados em seus celulares mesmo durante as refeições, alheios ao mundo à sua volta, é o filho da escritora Liang Hong, de 14 anos, Wang Yiliang.

O adolescente conta que acha a frase de um dos livros da mãe, Trinta anos no leste, e trinta anos no oeste, especialmente tocante. “Quando eu era mais novo, não sabia como o tempo mudava as coisas”, diz, à beira do rio da cidade natal de Liang Hong, que mudou de curso ao longo das mudanças do país. Jia Zhangke disse que dedica Nadando Até o Mar se Tornar Azul às gerações mais jovens, mas também às pessoas que vivenciaram o que documenta. Seu filme, no entanto, veicula um legado universal.




Trailer

Ficha Técnica

Título: adando Até o Mar se Tornar Azul/Yi Zhi You Dao Hai Shui Bian Lan
Direção: Jia Zhangke
Duração: 111 minutos

País de Produção/Ano: China, 2020
Elenco: Vários
Distribuição: Mostra SP

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Fátima Gigliotti

Fátima Gigliotti

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Cinéfila incorrigível, jornalista, editora, professora (não muito), crítica (chatinha) de cinema e audiovisual. Trabalhou no jornal A Folha de São Paulo, na coleção Cinemateca Veja, nas revistas TVA, Ver Vídeo, Set, Querida e Preview.

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Comentários (1)

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Pablo Schwartz
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Nov 2020
Primeiro
Pablo Schwartz diz...

Parabéns. Sua crítica me deixou com vontade de assistir o filme e me forneceu uma visão do contexto cultural para melhor apreciá-lo.

Admin:

Prezado Pablo, muita alegria em receber seu comentário. Essa é a ideia do OQVER, iluminar o filme de uma forma que o público o aproveite ao máximo. Obrigada! 

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