quinta, 21 de janeiro de 2021

A Árvore dos Frutos Selvagens


A Árvore dos Frutos Selvagens
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Não se engane, o tempo do mais recente trabalho do cineasta turco Nuri Bilge Ceylan é o presente. O vilarejo da Turquia para o qual o jovem Sinan (Aydin Doğu Demirkol) retorna depois de se formar em Pedagogia fica próximo de Canakkale, porto e ponto turístico nacional não apenas por abrigar a histórica cidade de Troia, como também as terras em que ocorreram a Campanha de Gallipoli, durante a Primeira Guerra Mundial. Na sequência de abertura, inclusive, Sinan passa pela estátua de um gigante cavalo, doado a Canakkale pela produção do blockbuster Troia, estrelado por Brad Pitt.

O tempo é também a matéria prima que Ceylan vai lapidando, em seus contrastes, anacronismos e em seu fluxo contínuo, imperativo. É por isso que as três horas de duração de A Árvore dos Frutos Selvagens fluem docemente. Com grandes e longos planos, a composição artesanal das cenas e da iluminação, o excelente elenco, a majestade da paisagem - não necessariamente bela, mas testemunha constante da história - e a riqueza dos diálogos e das situações, Ceylan parece ter conseguido filmar o passar do tempo. Esse do qual nem sempre nos damos conta.

Sinan volta para casa sem perspectivas de trabalho, a não ser um concurso público ou alistar-se no Exército. Traz na mala o manuscrito de um livro, que ele próprio chama de “meta romance de autoficção peculiar”, e a esperança de encontrar financiamento para a edição. Mas logo depara-se com as conhecidas fissuras familiares: o pai (Murat Cemir), também professor, que perdeu até a casa no jogo, a mãe desiludida, a irmã adolescente, o avô paterno solitário, e os avós maternos generosos.

Na simplicidade provinciana de sua terra natal, Sinan sente-se deslocado. Com uma improvável combinação de arrogância e compreensão (que o ator Aydin Doğu Demirkol interpreta à perfeição), ele tem longas conversas com os pais, o prefeito, um empresário, um escritor local, dois ímãs – chefes religiosos - e uma garota do passado. Em todas elas, o tom questionador de Sinan aponta contradições culturais, éticas, pessoais.

O olhar de Sinan espelha o olhar do cineasta em uma grande angular. Como Sinan, Ceylan - cujos filmes Distante (2002), Climas (2006), Três Macacos (2008) e Era uma Vez na Anatólia (2011) foram premiados no Festival de Cannes – lança seu olhar contemplativo e afetuoso sobre passado e futuro, raízes e sonhos, política e religião, amor e arte na sua Turquia natal. E como todo grande artista, seu olhar transcende o país e os personagens para incluir a vida. A Árvore dos Frutos Selvagens concorreu à Palma de Ouro em Cannes 2018. 




Trailer

Ficha Técnica

Título: A Árvore dos Frutos Selvagens/Ahlat Agaci
Direção: Nuri Bilge Ceylan
Duração: 188 minutos

País de Produção/Ano: Turquia/Alemanha/Bulgária/França, 2018
Elenco: Aydin Doğu Demirkol, Murat Cemcir, Bennu Yildirimlar, Hazar Ergüçlü, Serkan Keskin, Tamer Levent
Distribuição: Fênix Filmes

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Fátima Gigliotti

Fátima Gigliotti

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Cinéfila incorrigível, jornalista, editora, professora (não muito), crítica (chatinha) de cinema e audiovisual. Trabalhou no jornal A Folha de São Paulo, na coleção Cinemateca Veja, nas revistas TVA, Ver Vídeo, Set, Querida e Preview.

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