quarta, 14 de abril de 2021

Estou Pensando em Acabar com Tudo


Estou Pensando em Acabar com Tudo
Assista Agora!
Netflix

Faz 20 anos que Charlie Kaufman foi indicado ao Oscar de melhor roteiro por Quero Ser John  Malkovich. Era sua estreia no cinema e também a do diretor, Spike Jonze (Ela). De lá para cá, seu desconcertante “cinema cabeça” se tornou cult, e todo filme com seu nome nos créditos é um evento. O roteiro de Adaptação (2002) o colocou novamente na disputa pelo Oscar, e a cobiçada estatueta veio com Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças (2004), dirigido por Michel Gondry. Kaufman estreou na direção com Sinédoque, Nova York (2008), seguido da animação indicada ao Oscar Anomalisa (2015) e deste bizarro Estou Pensando em Acabar com Tudo, lançamento da Netflix.  

Kaufman adapta o romance homônimo do canadense Iain Reid e radicaliza sua já tradicional manipulação de tempo e espaço, com requinte imagético e narrativa impressionista entre o surreal, o sonho e o delírio. A abordagem é ainda mais introspectiva e dá voz aos pensamentos da fugidia protagonista (Jessie Buckley, As Loucuras de Rose), que tem muitos nomes e nenhum. Ela pode ser uma pesquisadora de física quântica, pintora ou garçonete. Seja o que for, a jovem acompanha o namorado Jake (Jesse Plemons, O Irlandês) numa viagem de carro sob nevasca para conhecer os pais dele (Toni Collette, Hereditário, e David Thewlis, Mulher-Maravilha) na fazenda da família, no interior de Oklahoma.

O clima é de suspense psicológico e a trama se divide entre a ida e a volta do casal, e o período na casa. As conversas no carro tomam cerca  por 40 minutos do filme, e boa parte dos diálogos são da jovem consigo mesma. Ela pensa em acabar não apenas com o namoro. Já o estranho jantar em família percorre décadas, com a idade dos pais mudando sem aviso. Kaufman se mantém fiel à proposta de subverter a linguagem cinematográfica e descartar verossimilhanças. Adentrar o seu mundo peculiar, inconformado e soturno, sempre elitizado, pode ser inquietante e fascinante.

Entretanto, sabe-se que o universo de Kaufman costuma ser predominantemente masculino, misógino até. Desta vez, é curioso como ele contrapõe a riqueza do monólogo interior e a lucidez e imponência verbal de sua protagonista com a situação de emboscada em que ela se encontra, cada vez mais refém do carro e da personalidade volátil do namorado. Não é à toa a citação do filme Uma Mulher Sob Influência (1974), de John Cassavetes, na interpretação da renomada crítica Pauline Kael (1919-2001).

Como de hábito, Kaufman povoa seu filme com citações: o poeta romântico oitocentista William Wordsworth (Ode à Imortalidade), a poetisa canadense Eva H. D. (o poema Bonedog), o pintor paisagista norte-americano Ralph Albert Blakelock, o pensador francês Guy Debord, o cineasta Robert Zemeckis, até o clássico musical Oklahoma!, do qual alguns números são encenados no epílogo. Deles depreende-se, aliás, uma das muitas possíveis leituras de Estou Pensando em Acabar com Tudo, de que a protagonista e toda a viagem pela qual Kaufman nos conduz pode ser apenas imaginação ou as memórias de um solitário e idoso Jake, que só queria uma mulher para amá-lo – e aplaudi-lo.




Trailer

Ficha Técnica

Título: Estou Pensando em Acabar com Tudo/I’m Thinking of Ending Things
Direção: Charlie Kaufman
Duração: 134 minutos

País de Produção/Ano: EUA, 2020
Elenco: Jesse Plemons, Jessie Buckley, Toni Collette, David Thewlis, Guy Boyd
Distribuição: Netflix

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Fátima Gigliotti

Fátima Gigliotti

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Cinéfila incorrigível, jornalista, editora, professora (não muito), crítica (chatinha) de cinema e audiovisual. Trabalhou no jornal A Folha de São Paulo, na coleção Cinemateca Veja, nas revistas TVA, Ver Vídeo, Set, Querida e Preview.

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